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quinta-feira, maio 12, 2005

TRIBILOGIA

traço uma recta
entre o espaço que vai de mim a ti
e a superfície que se formou plana
entortou-se e fechou-se em círculo
levei tempo para reconhecer
o voo de um pássaro
na forma de
uma
estrela
quando o objecto se fez conceito
varri do espaço cerebral
as nuvens quadrangulares
tropeço agora em
triângulos
perfeitos
linhas certas
três vértices
polos constantes
na vida em diagonal
que me atravessa
na recta inicial
abriram-se espaços
projecto hexágonos


(1984)

terça-feira, julho 13, 2004

CARNE, RIO E ALVORADA

Como a carne deste poema
- Misto de sangue e nervos,
Paixão e devoção,
Rio e nascente –
Os hinos gritam ternura
Rompem as silhuetas cruzadas
De fumo e álcool, pão quente.
Em corpo faminto
Vinho novo, boca ardente.
Na esquina aflita de betão e aço,
Como pedinte extasiado,
Bebo-te e como-te.
Oca de amor
Transbordo calor.
Aquece-te e queima-te no meu regaço.

Não trago nada nas mãos;
Apenas elas.
Vou tocar-te.

terça-feira, junho 08, 2004

PERSONA

Lamento
A maquinaria do ciúme, mas
Saboreio
O licor que ele segrega.
Invento a revolta.
Sento-me nesse banco de tristeza e
Desfruto
O prazer de me sentir só.
Sou louca!
Inventei-te para me martirizar e
Cumpro
A punição que não mereço
Para me ilibar
Do amor que
Não sinto.
Reconheço a máscara do artista e
Prossigo
Na representação.
Espero conseguir deitar-me
Satisfeita e farta e
Ter tempo
Para me aplaudir
Na última cena.

quarta-feira, junho 02, 2004

EVA MULHER

Esses teus olhos indiscretos
Tão cheios de malícia incontrita
Fome e sede de maçãs proibidas
Lembram-me a eva que não sou
Mas a serpente que envenena
Do adão que habita em mim
Ficou-me preso o caroço
Das palavras o peso
Que sufoco
Olhas-me inquisidoramente
Sedento do amor inexplicado
Faminto da mágoa em que me banho
Inundas-me de amor
E eu chafurdo em pecado

E adormeço feliz
Neste corpo podre de eva

segunda-feira, maio 24, 2004

NA PEDRA DO PORTO

Os bancos de areia
Que aconchegavam as marés
Mudaram-se para aquela praia
De ventos calmos
E cheiro a maresia de gaivotas.
As ondas agigantaram e deram à costa
Esmaecido o azul e em branco a espuma.
Que todas as tempestades
Conheçam agora calmaria.
Molho os pés nessa água lavada
E das conchas que semeio
Seleccionei as mais puras em forma e cor
Para te fazer um colar.
Nele encontrarás
Mar e areia
Cheiro húmido a sal
Canções de pássaros pescadores.
Usa-o
Sempre que te sintas perdido
Num caos de gente
Sempre que procures
Um cais de pessoas.

Eu estou na pedra do porto
Aceno-te amizade

quinta-feira, maio 20, 2004

ONDAS

Parto para a longa viagem
Rumo sempre ao cais de maresia
Euforia em cascatas de sargaços
Ritmadas pelo sabor a agonia.

Este mar que me engravida de lua
Enche-me de areia e sal; as redes rotas.
As barcaças estão na costa, breve rua
Onde vagueio – qual gaivota! -; as mãos soltas.

Olham-me marinheiros de águas doces
Sagazes dos ventos que me dilatam.
De pouco me serve o rio; secam-se as fontes

E já os sóis poentes me maltratam.
As sereias, já só habitam os montes
E as musas, é sem dó que as escorraçam.

domingo, maio 16, 2004

ESPERA

Quando a espera se instala
tudo tarda
Até a eternidade
hesita aproximar qualquer verdade
Ao quotidiano oculto em espera
de longe
chegam ecos do que é cíclico
até o vício se esquecer
que se fez homem
Molda-se o tempo
em compassos ternários
entre risos, frases soltas e abraços
O turbilhão imenso
imerso em calma
tinge de branco mácula os cabelos da alma
O choro surdo da negação
da vontade
a autonomia no gesto
que se fez tarde
tudo se avulta em corredores de memória
O tempo a crivo
reclamando o não vivido
Já sem espaço
apenas sonho; vazio o regaço
Grito mudo a soprar no vento
desgaste, lamento
embuste, saudade
A espera é cais de mau porte
abrigo podre
e ainda um dia se faz tarde

quinta-feira, abril 15, 2004

CONDENADA A SER LIVRE

Salinei desertos de culto
Areei oceanos em luto
E rasguei farrapos de céu - que é o mesmo
Do sonho enxuto um recado p'ra dependurar em toldo
- Tragam-me um vento arguto e manhãs grávidas de tudo
Me saiba a mosto a farta seiva
Do mar que aqui longe já não me banha
Corro a untar-me de óleos de guerra
P'ra escorraçar ociosos os tempos de espera
Fujo correndo
E já só fico onde longe chego

quinta-feira, abril 08, 2004

TALVEZ

Talvez
fosse mais fácil
erguer barricadas de fumo em luzes rosa ou madrepérola
polvilhar de sons acre e cheiros de colónias frescas
este bar qualquer de qualquer doca
só para se dizer que se está com a corrente estética
e que se é perito em não-sei-quê que os outros não
Talvez
não tivesse nenhuma piada
reconhecermo-nos na forma que temos
sem desejar o além que não nos encerra
como insistir em pintar de cores berrantes
um qualquer quadro que não vendemos
Talvez que até não fosse chato
sermos iguais aos outros a escolher gravatas
a arrumar na arca projectos infecundados e só escrever prosas flácidas
e embrulhar em alfazema o linho que hoje tecemos
com medo de fiar comida para traças
Talvez
até fosse correcto
beber maresia a horas certas pelo medo de congestões
falar dos outros invejando-lhes o ócio de fazer nada
e adormecer regalados de tanto cansaço
por enquanto não é mau pensar bem e pensar mal de tudo
é um luxo pouco dispendioso e fica-me bem com a cor dos olhos
acho mesmo que não me quero espreguiçar sem fazer barulho
ou não mascar pastilha elástica só por causa dos dentes
Talvez
fosse mesmo mais fácil
se não fossemos poetas - deve ser isso
entretanto levantamos as saias e saltamos riachos
e fazemos amor-na-praça-pública sem salas de cinema
porque não tomamos o mundo em doses a pensar na linha
entretanto aqui não se faz tarde
ainda temos tinta e vontade suficientes para nos limparmos
das teias que não deixámos segregar
por enquanto
Talvez
não fosse patético
continuar a intentar poemas
e deixar a seiva das palavras inundar os odres
das cavernas que a vida lentamente nos ocou

quarta-feira, março 31, 2004

SAUDADE


Saudade
Feres
Os nervos tensos
Dedilhas
No meu peito
O grito
Aflito
De
Um ventre
Infecundo
Sufoco
O sonho
Frágil
Lapida
A minha noite
Em dia

terça-feira, março 30, 2004

É O MEDO PRECISO


É
É preciso
É preciso vencer
É preciso vencer o medo
É
É vencer
É vencer o medo
É vencer o medo preciso
É
É o medo
É preciso o medo
É preciso o medo vencer
É
É vencer
É medo vencer
É medo vencer o preciso
É?
É preciso?
É preciso vencer?
É preciso vencer o medo?
Medo?
É preciso medo?
É preciso vencer o medo?
É?
É?
É?
É o medo.
É o medo preciso.