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terça-feira, junho 24, 2008

o artifício do fogo


Tudo o que vejo limítrofe ao meu canto
só prolonga a escuridão.
E eu queria queimar os olhos
com surpresas.
Emagreço os contrários
para equilibrar os invernos
e as chuvas que caem só pontualmente me molham.
[
O que vou escrevendo
sempre antecede os últimos pensamentos
]
Volto. Volto por método
dois passos à frente de onde me perdi.
Sei de um lugar
onde brotam malmequeres espontâneos
que se colam, gavinhando, à verticalidade
com que escrevo a vida.
[
Legitimo a urgência
: queria
queimar os olhos com surpresas
]


Conservo intacta a taça onde me embriago.
[
A sede é uma simplificação que o corpo inventa
]

quarta-feira, maio 21, 2008

labirinto


Depois de decifrado
o labirinto
enrolei metros de recta
para descobrir que
deliciosos
eram os ângulos!…
Então
divertida
como criança
que seriamente brinca
devolvi-a à sua real importância
: reintegrei-a
num labirinto
. E repousei
a contemplar a obra reparada.

quinta-feira, maio 08, 2008

a minha rua


há uma fiada de muros ao longo da minha rua
por onde os gatos caminham. de vez em quando
um hiato de portão. uma sebe
bem cortada espigada por flores teimosas.
um som de porta de carro
bate no silêncio e distrai-me os cotovelos
do parapeito da janela. o moderador da minha atenção
segue a fiada de muros ao longo da minha rua
e integra o hiato de um portão. um som de porta de casa
ecoa a batida anterior no silêncio e distrai-me dos cotovelos.
há uma fiada de parapeitos ao longo da minha sebe
bem cortada de gatos que caminham por flores teimosas.
a minha rua é uma janela espigada por onde
caminham os meus pensamentos porque
há um lar de vez em quando onde os gatos se detêm.

terça-feira, maio 06, 2008

inumano


a atenção
para a frente se redige - o pescoço hirto -

nenhum fascínio
a redirige. a lua - um disco plano - imóvel
poalha de poemas - sobra

        há uma hérnia nos dedos
        há uma catarata na íris
        há um homem a mais - que soçobra -


e um prisma invertido
divertido com antigos medos

segunda-feira, maio 05, 2008

papel memória


não sei porque não se escreve a luz
que cada um emana

se cada indelével
raio
única assinatura
traz nos caracteres inscrita
a criatura

(porque se impressiona
no papel memória
o panning da amargura?)

domingo, maio 04, 2008

Tu és o outro


Tu és o outro
-- que outros outros despedaço --
Em ti não quero fímbria de remorso!

Regaço aberto
-- que outro novo abraço --
Em mim só fogo bravo e sempre moço!

Enquanto assim escorrer de mim
o tempo—lasso o laço—
Solto o brado e lanço o braço!



Nenhum recado o amante eleva
além do muito querer—depois não querer—
Perde o outro em si se a si se nega!

quinta-feira, maio 01, 2008

fantasia


é intrigante
a fantasia.
achar o motivo
para entender
parece ser o nosso ofício.
mas é mania

[
corre o vento.
quando ele não corre
acaso dizemos
: pára o vento
?
]

deve ser mania
imaginar o vento
em eterna correria

sábado, janeiro 20, 2007

Identidade

| a humanidade espelha transversalmente o que a une, pela semelhança. porém, só se valida se acentuar a diferença. | mjm


Ser-se a antítese de si mesmo
Negando ao outro a redenção
Pelo reconhecimento
Retira a confiança do crente -
A paz em que espelha cansados os olhos
No espelho dos meus, reciclados escolhos -
Logra tranquilizar-se por se ter achado
Refractado em partículas que lesto absorve;
Mas já nada devolve
O que faz ser-se humano

[
Se quem me precisa é um outro sujeito
E se em tese de outro outro num outro preciso
Precisa serei por esse outro pelo engano
Que em mim acha o que de mim precisa
Sem em mim reparar que por síntese ou encanto
Preciso é precisar o que é desumano
]

Passo a água na cara
A água no corpo; a água no leito
Limpo da vida resquícios de mágoa
Trajectos que a alma errou desajeito
Sagaz embacio reflexos que espelhem
Este loudaçal que se espalha pelo peito
Sem haver outro jeito; sem ver outro jeito
Sem jeito de um dia conseguir esconder
O que degenera num crime perfeito

quarta-feira, novembro 22, 2006

de fora pra dentro


| Espalmo o pensamento contra a vidraça
Uma estrela faria toda a diferença |


estar por dentro e olhar pra fora;
olhar o dentro no de fora;
como se o dentro do de fora
fora por fora o que falta dentro;
esperar por dentro que o de fora
venha pra dentro - nem que fora
só por um laivo de momento.


_________
(inspirado por este poema da Márcia Maia)

terça-feira, novembro 14, 2006

no limite


baixou uma luz ténue
na rua. na rua larga sem limites de passeio.
um modo estranho de percorrer o mesmo sítio
sem saber se fui. se estou.
sequer se existo. sei que é rua
pois diviso algumas casas. gente
que divaga. como eu. anda sem jeito.
perde-se a luz na rua. na rua larga sem limites
como os meus passos. no limite
do meu peito.

sexta-feira, outubro 20, 2006


deixar que a cabeça penda sobre o papel
que suspire embacie as letras
esborrate as linhas do mote
como o suor que inunda a pele

deixar que penda o verso sobre a cabeça
e consagre o momento
agarre o poeta
que investe entristece
que divaga se projecta
e se propaga
entre a mente e o papel

no turbilhão da escrita
evade-se e amplifica-se o tropel

aquilo que sempre fica
não contém senão pegada
da dor, do amor (são história desmaida)
só viva e funda a espada
marca d'água consignada sob a pele

sábado, agosto 26, 2006

Construções


Começou pelo fim feito deserto máximo
Fechou-se no seu quarto feito eremita rústico
E a cada dedilhada na guitarra acústica
O som embrionário se escondia opiácio
Vibrando entre dedos de ossos vetustos
Como se a eternidade fosse feita de plástico
E o seu desejo vário variasse em mono
Cercou-se de instrumentos de derrame inválido
Sorrisos comprimidos em dádivas últimas
Como se o seu destino fosse ser seu hóspede
Nasceu de mil bocados em alicerces torpes
A voz bem recolhida em colcheias de barro
Na música aflorando pedaços de escrita
A pele a vibrar sons sem nexo de consolo
Retornando ao embrião que gera sonhos cálidos
Caíu na encruzilhada dos desejos bárbaros
O amor era o corsário desses desejos vários

Começou pelo fim feito derrame inválido
Fechou-se no seu quarto feito um opiácio
E a cada dedilhada na guitarra de barro
O som embrionário se escondia cálido
Vibrando entre dedos de ossos acústicos
Como se a eternidade fosse feita de dádivas
E o seu desejo vário variasse em sonhos
Cercou-se de instrumentos eremitas rústicos
Sorrisos comprimidos em dádivas torpes
Como se o embrião gerasse sonhos bárbaros
Nasceu de mil bocados em alicerces plásticos
A voz bem recolhida em desertos últimos
Na música aflorando pedaços de mono
A pele a vibrar sons sem nenhum nexo máximo
Retornando ao embrião que gera corsários
Caíu na encruzilhada dos desejos vários
O amor era uma espécie de consolo hóspede

______
(contraponto ao Construção, Chico Buarque)

terça-feira, junho 20, 2006

lugar solitário


para que os jasmins
me contassem do sol
de hoje que perdi
voltei à noite
esse lugar
de encontros solitários
de mel nos lábios
e os cheiros todos
imaginários
da ausência de ti

domingo, junho 04, 2006

pés de lua


saem passos
detrás dos passos
de pés parados ao rés da rua
pés de lua
não caminham
voam
parados na mira
da pálpebra cerrada
pés e olhos
flutuam

sábado, junho 03, 2006

brilho


são
traços sem luz
os que desenham
poemas
à espera
que o brilho
dos teus olhos
lhes definam
as formas

quinta-feira, maio 18, 2006

lúdico iludo


semi
       pan
multi
       rés
ultra
       micro
ciclo
       socio
viés

signo.solto.ante.cipando.psico.morfo.logias
= castro o casto sopro = lúdico iludo =

sábado, maio 06, 2006

se é ave que canta...


não adianta
a recorrência sonora
qualquer ave canora
sabe
que o canto se faz
da sem-vontade
é uma espécie de grito
impresso no corpo
como a asa que
sabe
do voo
ainda que queda
no ninho piloso
o canto ness’ave
não sabe que
sabe
que é d’ave que canta
fá-lo somente
recorrentemente
somos nós quem se espanta
com a própria garganta

domingo, dezembro 26, 2004

sente


sente o que de novo sinto
indecente e rubra sem carmins postiços
sem mentiras airosas
que só adornam prosas

sente as faces amplas
e os dentes brancos a trincar os frutos
sem a infestação regulamentar de conservantes

alguns sons ainda se alongam
em pestilências
temem espalmar-se vazios
num fundo espesso que rescende amores
: mas são ecos mortos

sente a maresia dos portos
a flor do sal
vem ser batel
que trago ilesas
as velas que navegam corpos

sente e consente em mim
os cálculos inatos
multiplica-me anseios à volta dos seios
que o traçado do voo é ocasional
: vertigem improvisada que nasce por bem
nunca se despenha no mal

sente a transgressão do hábito
que embala o pêndulo suspenso do tempo
nem por um momento
se aquiete a mão no movimento
: renascer é fundamental

terça-feira, novembro 23, 2004

Diapasão


Entre os lábios, fica a vibrar
a boca da voz, se beijo digo,
antes de lá ter chegado nascido
- não a nostalgia de lá ter estado! -
como a mente a preparar o fone em canto
- que a música pré-existe o jorrar em som.

Submetidas ao tecto do canto, como notas indecisas,
celebram-se histórias apostas,
- na voz que fala, na voz que cala -
esmagadas sob as partituras
que o tempo vai escrevendo na pauta estranha das costas.

Assim se regem concertos
nas mãos de enlouquecidos maestros
que elegem manusear a pulsação dessa voz
com a precisão dos seus gestos.

domingo, novembro 21, 2004

Estigma


Há palavras que são morangos
Há palavras que são tamancos
Outras, chão, céu, oceanos
À palavra solta, nova,
Que não vem de lugar nenhum – apenas chega
Que não quer ir ou voltar – espera
A essa, não a molestem
Não a obriguem a fazer prova
Que venha, se instale – nos beba
Que vá, se refracte – nos leve
Indiferente o que carregue
É a arribação que nos salva – o frémito
Limpa as asas ao pretérito