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sexta-feira, dezembro 30, 2005

as duas margens

digo parto e ris das palavras retorcidas
tradutor de imagens que regressa devagar
ao adiamento de todas as chegadas
dizes chego e rio das palavras comprimidas
arquitecto de paisagens por onde o vento
circular te traz adiado ao meu porto de chegadas
são tantas as horas gastas
tantos os lugares onde estive e tu não estavas
digo parto e quase chego ao rio sereno
que atravessa as duas margens

quinta-feira, dezembro 29, 2005

chegarás um dia atrasado

chegarás um dia atrasado
pensei dizer-to enquanto ainda podia
é assim até com o passado
ainda que esteja mesmo aqui ao lado
está tão longe como quando te sorria
não lamentes
são assim insipientes
os acasos que se arrastam em correntes
e o amor amor
é um jogo que se perde sem batalha
um dia chispa em chamas
noutro fenece sem razão que o valha
vale a pena de o lembrar sem pena válida
descrevê-lo é tirá-lo de um contorno
se assim definha amor o amor é abandono
e eu amo assim sem fim pensado
- ah a imensidão da gente
que se crê pertença se consola e se agasalha
com tão fraco sol de pão migalha -
mas eu trago esta fome nos dentes
nem agora nem antes vesti verdades
de enfeitar frases em poemas
a vida quero-a nua sem metades
do amor não mais apenas penas
chegarás um dia atrasado
por ti amor esperei ciente
dei-me inteira dei-te inteiro o meu presente
de ti amor guardo grata o meu passado

terça-feira, dezembro 27, 2005

olhar cansado

trago nos olhos cansados
um pouco ainda de ti. é luz fraca
que refracta o hábito de te ter
por dentro. já sem cor debota em sombras.
o ardor morreu e as delongas são cataratas
que ficam mesmo que partas da retina
do olhar meu. soa a lamento e o retrata. mas ver-te
sem te ver por dentro é espectro é folha
que o vento embrulha no chão e se arrasta
se prende à sola ou se engasta num trilho
que se perdeu.
trago nos olhos cansados
um pouco ainda de ti. desfocagem
sempre alastra como rota que me afasta
se te olhar fora de mim.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Branco. Silenciosamente branco.

Vinha agarrar em palavras
Coser-lhes missangas, mesclá-las
Para vos falar de natal
Seriam nobres mensagens
Altivas, densas imagens
Plenas de esperança afinal
Porém, parei ainda a tempo
Não sei trocar o meu lamento
Por frases compostas de cal
O meu branco é puro e portanto
Nada tem que vos traga o encanto
Que se entoe num canto banal
O meu soa tão mudo de falas
Roça um mundo tão parco de graças
Que só do silêncio é rival

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Ímpar

Mato-te
antes que morra
que só de o pensar
uma lágrima ecoa
e a consciência não perdoa
a quem não soube amar
O ímpar
é inteira parte
parte se parte pelo imo
fica em metade se parte
mas não é metade de um par

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Coágulo

Se ao menos por escrever
Se desfizesse o coágulo
Corriam lisos da estante os pensamentos
Dos outros e as paredes voltariam
A ser paredes brancas como brancos
Os meus sonhos
Vou pensar tudo de novo até
Nada escrever para não acabar em coágulo
Nas estantes encostadas às paredes
Brancas tapando os sonhos
Brancos de outros

sábado, dezembro 10, 2005

lembra-me de te fazer um esboço

esboço #1

lembra-me de te fazer um esboço
um desenho simples mal traçado mas daqueles que
ninguém se possa rir sabes não sou pintora e disso guardo
desgosto admiro mas sem inveja quem consegue
passar para a mão as imagens que lhes passam pela
cabeça eu não consigo e tenho tantos quadros na cabeça mas
lembra-me de te fazer um esboço
já entendi que te perdes nas palavras que são para ti
como rios sem margens que te transportam e nem sabes
para onde fazem-te falta as margens de uma moldura
a mim não talvez por isso por me encaixar nas palavras
tenha perdido a mão para a pintura mas tenho porém
uma vantagem a memória para as cores sabes
consigo lembrar-me das cores e
dos sons e reproduzi-los como com as palavras
lembra-me de te fazer um esboço
um esboço só de palavras para a seguir
logo a seguir o poderes mandar pintar

esboço #2

Lembra-me de te fazer um esboço. Um desenho simples, mal traçado, mas daqueles que ninguém se possa rir. Sabes, não sou pintora, e disso guardo desgosto. Admiro, mas sem inveja, quem consegue passar para a mão as imagens que lhes passam pela cabeça. Eu não consigo. E tenho tantos quadros na cabeça!…
Mas, lembra-me de te fazer um esboço.
Já entendi que te perdes nas palavras; que são para ti como rios sem margens, que te transportam e nem sabes para onde. Fazem-te falta as margens de uma moldura. A mim, não. Talvez por isso, por me encaixar nas palavras, tenha perdido a mão para a pintura. Mas tenho, porém, uma vantagem: a memória para as cores. Sabes, consigo lembrar-me das cores, e dos sons, e reproduzi-los. Como com as palavras.
Lembra-me de te fazer um esboço. Um esboço só de palavras. Para a seguir, logo a seguir, o poderes mandar pintar.

esboço #3

lembra-me
de te fazer um esboço
um desenho simples
mal traçado
daqueles que ninguém se possa rir
sabes
não sou pintora
e disso guardo desgosto
admiro
mas sem inveja
quem consegue passar para a mão as imagens que lhes passam pela cabeça
eu não consigo
e tenho tantos quadros na cabeça
mas
lembra-me
de te fazer um esboço
já entendi que te perdes
nas palavras
que são para ti como rios
sem margens
que te transportam
e nem sabes
para onde
fazem-te falta
as margens
de uma moldura
a mim
não
talvez por isso
por me encaixar nas palavras
tenha perdido a mão
para a pintura
mas tenho porém
uma vantagem
a memória para as cores
sabes
consigo lembrar-me
das cores
e dos sons
e reproduzi-los
como com as palavras
lembra-me de te fazer um esboço
um esboço
só de palavras
para a seguir
logo a seguir
as poderes mandar pintar

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Álibi

Na clausura da memória
O enredo de uma história
Espera inerte por contar
Por viver todo esse espaço
Provoca mais embaraço
Por não se poder lembrar

Mas artífice sempre inventa
Escassa seja a ferramenta
Que a matéria a trabalhar
Se transformará em peça
Se depender a tarefa
Da mão que a pode moldar

Quem a vê nem adivinha
Que nasceu quase sozinha
Da vontade do autor

Assim é com certas vidas
Embora sejam vividas
Sob o álibi do amor

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Instinto

Lá do alto
olha-me o falcão
em voos curvilíneos.
No instinto dele
sabe
que me pega;
No meu instinto
sei
que não me agarra.
Quanto de nós
pensa saber
o instinto
de quem nos observa?

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Nego tudo!

Tentem alcançar-me queda submissa
Presa pela perna a uma cadeira
No rosto a expressão cava de uma olheira

E eu
Nego tudo!

Quieta permaneço por preguiça
Nada movo nem por leve brincadeira
Séria rezo viro o terço viro freira

Verso-me eu e
Nego tudo!

Noutro modo verve é lança como liça
Redemoinho em quezília de guerreira
Verbo grado atiçado pela fogueira

E eu
Nego tudo!

Infla-me o peito o mal a dor mortiça
De te querer bem e mais que mais não queira
Esconjuro vil o amor brutal romeira

Verso-me eu e
Nego tudo!

quarta-feira, novembro 30, 2005

zen.it.ando

ficar assim
inerte e espessa
leve, enfim, me deito
sobre o teu peito leito

sintagma que aglutina
amor e leito num só sujeito

sereno se, por fim, entendo
nada temer; nenhum medo haver
se a manhã não vem, se páro também
fico inerte e espessa
deixo que adormeças dentro do meu peito
leve, enfim, te deito

quinta-feira, novembro 24, 2005

a dor a ousar

se me custa pedir
mais dói faltar
o que preciso receber
sem pedir ousar
mas ouso
enfim
doer se é dor pedir
faltar é perceber
que custa
enfim
saber o quanto dói
a dor a ousar de
precisar

domingo, novembro 20, 2005

de.mim.go

é só
domingo
dor
em mim
minguo

.
é
domingo

de mim
mingua
a dor
é só
.

quinta-feira, novembro 17, 2005

A urgência de dizer

Quando sinto a urgência
de dizer
paro na curva exausta
dos teus lábios
e sorvo o teu silêncio
como metáfora
que escreve
em mim
o que não posso ler.
A urgência passa.
Calo a palavra
naquela que te abraça.
Aquela
que diz tudo
o que eu não sei dizer.

terça-feira, novembro 15, 2005

por culpa da lua

pensei
se vês a lua
quando te olhas por dentro
como a vejo eu aqui mesmo ao lado
distintamente a vimos ambos
sem a lua termos enquadrado
de como a vejo eu
pensei
parcos instantes
e quando a vislumbrei tão alheia a mim
entendi que sou quem muda
a cada instante
e ela alheia a tudo
como tu de mim
uso-a sem quase nada
dependurada ao peito como amuleto
desse compromisso
ela, porém, nada sabe
é ré por momentos
alheios a si
cíclica existe
como existem astros
que rodam, transladam cada qual per si
num conceito lácteo de regras e espaço
sem noção de um dia poderem ter fim
pensei
e por isso muito mais me afasto
dum ciclo ao qual ínfima pertenço
tal qual poalha
que não roga ao astro a magna importância
de um recomeço
pensei
se a lua que nos pertenceu
por sorte a vimos mesmo sem a olhar
não sabe ela sermos nós cativos
dela, pois que a submetemos
às regras de amar
há uma lua nova
em cada poema que parece igual
a cada um de nós, mas quem a retrata
cega, e, sem dilema
sabe que é diferente essa lua
em nós
por isso
pensei
rendê-la inocente
das fases que usurpo dessas faces dela
cedo a libertá-la deste meu poema
deixá-la ser lua e nós pó
sem ela