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terça-feira, outubro 25, 2005

Visita-te, ateu.

Visita-te, ateu.
Mesmo que desconheças os desígnios
de uma fé sem corpo. Hás-de ter algum foco
que possa incidir sobre a imagem de um deus sem tamanho.
Farás bem de teu deus, acredita.
Faz-te falta, sim, amar em sossego distanciado dos
apegos que te cobram os afectos de cartilha. Assim,
não desperdiçarás os beijos, ó avaro de ternura! Sonha
sem remorso; dá-te as asas que invejas nas falas
dos outros. Se dormes tranquilo, achas que isso é sono?
Estás morto! E na romaria dos mortos a vida é um halo a enfeitar
de serpentinas uma árvore de natal. Parece-te mal?!
Guarda nos bolsos as migalhas que agora espalhas sem gula
que a fome enjeita a fartura, canalha! A centelha que acendes não tem
óleo que a faça durar? Inventa-a! E perfuma-a. Se um fio de cheiro
te perpassar as narinas, terás conseguido incorporar
o teu deus, ó ateu dos domingos sem manhã! As escrituras que procuras
estão nas dobras do lençol. Por isso, dorme.
Se te visitares, presenteia-te e diz-te que os bilhetes na porta do frigorífico
não fazem de ti um ser vivo. Peleia! Que não há só maré cheia e
nem sempre o sol activa os ponteiros com que adornaste a lage do
teu jardim; bem podes esperar sentado o pôr do sol do meio dia.
Decresce a prece que te prometeram e que não se cumpriu? Ah ah ah
pobre de ti, que acumulas esperanças sem teres usado por mérito
as primeiras que te cabiam. Lambe os beiços, indigente da sorte!
Espera e não mudes, ó escroque! Esconde-te ou salva-te, mas aproveita
o bocado que te foi reservado e oferece-o sem baba a um pobre.
Ah! E persigna-te perante a morte
quando acabares de joelhos sem que antes tenhas ouvido soar o toque da partida.
Assim é que não, criatura; a isso não se chama vida!

domingo, outubro 23, 2005

Sombra

Queres ser o quê
De mim, que mal me sei?
Na base da nuca tenho uma estátua esculpida
Por mãos de saber tão pouco
Queres ser o quê
De mim, que mal existo?
Sujo o silêncio quando ensaio palavras
Agrestes para quem nada entende de devastação
E já nem morro porque mais não posso
Sabem-me bem as tuas mãos quando me traçam rectos os ombros
Mas isso é ser de mim o quê?
Esquadro que me projecta hirta entre a multidão dos homens pardos
Que fugiriam da ambiguidade das sombras
Não queiras de mim ser nada
Deixa-me anonimamente encostada à ombreira da porta
Que os escombros acabarão por derruir as estruturas mal desenhadas
E os ombros descairão flácidos dessa mesma posição
Tudo se renova excepto o nada de nada
E só és sombra entrelaçada no traçado do meu chão

sábado, outubro 22, 2005

Vadia-me!

Já tenho as mãos rasgadas
Pendulando entre palavras
(Não me vistas mais nada
Sou intempérie e sol com peixes)
O sem sentido é o mote
Pois a sorte é um oásis
Onde chovem lágrimas
E mãos costuradas esbanjam tâmaras
Em bocas saciadas

A alquimia do beijo é sonho nómada
O amor, involuntário
E a vida é de quem despe o desejo sedentário

segunda-feira, outubro 17, 2005

de a querer dizer

Se houvesse um tipo de felicidade
que se pudesse dizer
sem se perder tão depressa
ao ponto em que perdê-la
não tivesse qualquer importância…
A felicidade
quando importa dói.
Quase tanto quanto a impotência
de a querer dizer presente
e só se ler distância.
Retida numa mão a guardo enquanto
a outra espreita
a ocasião da troca pelo vazio abstracto
da verosimilhança.

quarta-feira, outubro 12, 2005

micro fala

eu via
as ondas a polir as pedras
numa intercepção não consentida
transformar sons em edema
enquanto a lenta linguagem geológica
estridente e dolorida
se arremessava contra as ondas
vivazes
porém tão surdas
quanto eu cega a vê-las

segunda-feira, outubro 10, 2005

Liquidamando

Deviam ensinar-nos o nomadismo
da água. Sabes, a água não tem casa;
só caminho. A água perde pedaços, quando desenforma
dos leitos. Há um não sei quê de clandestino e
inato que a água teima em transportar, mas que
não vemos. A nossa água toda liquefaz-se aprisionada
na casa do corpo. Faz puxar ao corpo um
outro corpo; um corpo leito. Sedentariza
nas veias, depois; e nós sem vermos. Tem que haver
muitos olhos de água no amor; a água nómada
a escorrer-nos sobre o peito. A água nómada a nascer-
-nos sob o peito.

terça-feira, outubro 04, 2005

há coisas

há coisas
que são para ler de noite.
há coisas
que sendo noite não podem ser lidas. ou
há coisas
que só a noite deixa ler.
há coisas
que lidas de dia não têm noite.
há coisas
da noite dos dias. ou
há coisas
que são noite todos os dias.
há noites
que fazem coisas assim.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Anjo da guarda

Mandei restaurar
O meu anjo da guarda
Quando o fui buscar
Reluzia
Aproveitou
Um momento meu de
Distracção
E escapou
À minha vigília

Vaidoso
Se humanizou

sexta-feira, setembro 30, 2005

tem_de

o poeta tem um animal de
estimação, um lugar que se enche de
ácaros, uma mancha de
luz, que entra pela janela de
sacada e se enodoa no tapete trazido de
um país que visitou numas férias.
o poeta tem provas de
existência, usa um nome de
baptismo sem relevância.
o poeta conversa, come comida de
lata com o prazo decalcado por letras de
um carimbo que o atesta.
o poeta dorme a sesta.
sempre que o poeta tem, há um de
que o comprova.
pela escrita o revoga.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Que parta!

Se a solidão quiser partir
Que parta!
Mas que saia da soleira da porta
E deixe entrar
A claridade que tapa

domingo, setembro 25, 2005

minha lucidez

quantas vezes
o teu sonho
é a minha lucidez
outras tantas, trocamos
e em cada vez
translucido
se o sonho suicido
sigo sonhando
o teu sonho
- lucidez

sábado, setembro 24, 2005

cadeira de baloiço

Se hoje não tenho uma hora preferida
É porque desmarcaste o combinado
Sento-me no lugar errado
Mas nunca perdida
Essa é a perfeita partida
Que a vida me traz
Sentir a tua ausência
Sem nunca haver despedida
E todas as horas vacilam
Para a frente
E para trás

terça-feira, setembro 20, 2005

almografia

quando o que escrever me leia serei não ser que peleja em cada letra escassa almografia em metáfora desformatada vazia
um ser ser que se volatiliza do registo sem letra sem poesia a ler me a escrita
a ler me escrita

domingo, setembro 11, 2005

Inventário


confiro
o nome e sobram
     l   e          t   r          As
se
s.o.l.e.t.r.a.r
a parte
amorfa

continuadamente

quinta-feira, setembro 01, 2005

apesar de tudo

árido o solo que eu piso.
como o teu.
apesar de tudo.
quase iguais de próximos
se tocam.
longos espaços de tédio o cercam. e vem
recorrente o sonho
daquelas mãos todas abertas
muitas. apesar de tudo.
acenam e pedem e afagam
e escrevem. muitas mãos
a pisar os nossos solos.
não sinto saudades do vento nos cabelos.
viva a brisa no meu peito. só isso.
pendulando
e amar. apesar de tudo. e amar.
apesar de tudo.