.................OU SEJA, UMA CONCORDÂNCIA IDEOLÓGICA....................................................................................................

terça-feira, maio 31, 2005

Amputações latentes

Descrês dos teus próprios
pensamentos e o clamor
não pára de vociferar por dentro.
Crê-los dissonantes
das verdades corrigidas
que circulam em panfletos,
a negarem a luz dos fósforos que riscas
no breu do silêncio. Não confiras
inventários! Mede a capacidade
incomensurável, mas não te percas
a validá-la pelos que chegaram antes e viram
o depois, antes de ter sido tempo.
A circunstância mede a pegada
não a distância.
Entre os teus passos
e os meus,
ninguém reclama o firmamento.
Se fremem gritos são do futuro
no esconjuro do seu próprio chamamento.

Glasses

O meu coração é isto
Passa por mim e sem me ver
Desfaz muralhas só por querer
E ao longe, mas mesmo ao longe
Confunde amor
Com paraíso

quinta-feira, maio 26, 2005

Entorna-se o medo

Entorna-se o medo
Como
Maçãs de ouro
A amanhecer por dentro
A correr

Entorna-se o medo
E há gazelas
A correr
Nas telas
Nos olhos
Os olhos
A escorrer
Avessos

Entorna-se
O medo
E há medo
Do medo
A correr

sábado, maio 21, 2005

Adlábios

os meus lábios
            Advérbios
            Adlábios
os teus verbos
[Nenhuma gramática funciona]

quarta-feira, maio 18, 2005

Dual

A tempo | o tempo urge
Não passa | tinge e devassa
Aqui, vazio | ali surge
Decerto simples | complexo
Do mais ao menos | excesso
Se vem, se fica | que passa
Não saber | saber, sabia
Teimosa idiossincrasia
Redução | assim extravasa

quinta-feira, maio 12, 2005

TRIBILOGIA

traço uma recta
entre o espaço que vai de mim a ti
e a superfície que se formou plana
entortou-se e fechou-se em círculo
levei tempo para reconhecer
o voo de um pássaro
na forma de
uma
estrela
quando o objecto se fez conceito
varri do espaço cerebral
as nuvens quadrangulares
tropeço agora em
triângulos
perfeitos
linhas certas
três vértices
polos constantes
na vida em diagonal
que me atravessa
na recta inicial
abriram-se espaços
projecto hexágonos


(1984)

quarta-feira, maio 11, 2005

Nem rio

Não sei de margens que me estreitem
Senão teus braços
Nem de bocas que me expliquem
Senão teus lábios
Mas sequei tanto
Que de mim não tens o rio
Só fráguas da memória empobrecida

Aqui donde me vês não há guarida
Nem cais nem arrais nem mesmo cio
Não permaneço e o leito meço
Sinto ser pântano e apodreço
Corais não há peixes não tem
Não há ninguém
Nem mesmo o rio

terça-feira, maio 03, 2005

Se eu disser pássaro

Se eu disser pássaro
Cortem-me as veias!
Pássaro é símbolo de tudo
O que não roço
Se eu disser pássaro
Cortem-me ao meio!
Nessa palavra me iludo
Posso tudo o que não posso.

sábado, abril 30, 2005

Circunstância

Pouco importa
Se a lua se derrama sobre
As coisas
Ou se os peixes da memória
Formam correntes
Somos esta circunstância
Um quase nada
Um hiato na linguagem
Um átomo a mais nesta paisagem
Uma viagem sem regresso
Um esquecimento

terça-feira, abril 26, 2005

De quando em quando

Nada me pertence
Que me reclame
Entre o vão do tempo
E o sopé do espaço
O meu desenho
Desfaz o laço
A nada pertenço
Que me prenda ao mando
Só questões e dúvidas
Nada de permutas
Suspensas do braço
E as respostas francas
São só nuvens brancas
Suspensas no céu
Lá de quando em quando

domingo, abril 24, 2005

oh meu amor

oh meu amor
com que mãos te tocar
eu sei nada
nada basta eu sei oh
tocar as mãos
oh nada
basta meu amor

oh palavras
não direi amor
saberás oh
gestos nas mãos
oh nada
basta meu amor
tocar palavras

sexta-feira, abril 22, 2005

Não é fácil morrer com método (V)


Face It by artofgold


Não se prescreviam lobotomias para casos limite daquele tipo. Isabel, revolvendo ponderações, não conseguia vislumbrar em que pontos viciados se detivera, em que intrincados meandros se tinha enleado; apenas sabia que não queria para si aquele estado alienado de profusão de humores instáveis que faziam antever a loucura.

As árvores da minha infância
Exibiam uma profusão de pássaros
Que nunca mais alcancei
Havia uma asa que os lembrava
Quando da primeira vez te encontrei
Quis retrazer esses pássaros
Pousei na árvore e tombei


O limiar da dor, quando ultrapassado, despoletava em cadeia reacções ilógicas com laivos de sobrevivência. Fremiam nela as oscilações instáveis da desistência. Prometia-se controlá-las, mas sentia-se incapaz. Os contratos que se tinha contraído eram desonrados vezes demais. O tempo, aparentemente ganho com os seus discorreres lógicos, caíam no segundo exacto em que dele chegavam notícias. Ele transformara-se no magnete que atraía todos os elementos da sua vida - «O amor derrama-se em tudo, enquanto o amor tudo derrama.». Parecia que tudo voltava ao início; que em cada novo momento se renovava uma esperança, mas intuía saber que aquele era um amor gorado, sem o eco que o amor pedia.
Era desumano viver assim. Estava cansada. De si, do mundo, do mundo dentro de si.
«Às vezes, fazem-nos viajar no tempo. Outras vezes, apenas nos perdemos nele.»

...


Conferiu as velas; acendeu-as. Tinham chegado as flores; dispô-las. Olhou o relógio de parede e deixou cair o olhar sobre o relógio da lareira no momento preciso em que os ponteiros se sincronizavam. Acabara de matar o Amor.

quinta-feira, abril 21, 2005

Não é fácil morrer com método (IV)


Looking Out by artofgold


Alguns bocados de madre-pérola tinham caído e os embutidos, que formavam uma geometria floral, lembravam aqueles sorrisos das crianças na idade cómica da muda dos dentes. Os bordos da tampa eram polidos, num redondo onde apetecia demorar o indicador direito, repetindo o gesto, como quem enrola uma melena de cabelos e depois deixa que se desencaracole, lentamente, deslizando suave por entre os dedos. Abriu a caixa muito devagar, para poder absorver aquele aroma do cedro.
«Minha querida,
Não prometo mandar-te esta carta de França, mas o que eu te tinha prometido era escrever de França, e o que é prometido é devido. Mas nem sequer é por dever que te escrevo; escrevo-te pelo puro prazer de estar contigo, ainda que separados por quase dois milhares de quilómetros.»
Descansar os olhos sobre a pele de uma carta era como atirar-se sobre um fofo edredão de penúgem e deixar o corpo embutir-se. Pegara na caixa porque lhe apetecia recriar as sensações que tinha ao lê-lo. Já não sabia distinguir se era a ele que amava, se ao que sentia quando o lia.
Anulava-se a distância por se evocar uma presença? A ausência era mais espessa quando o evocava, logo, nenhuma evocação equivaleria a uma presença. Que ilusão, recriar o espaço e viver dele! A imaginação construía imagens mas não conseguia trazer os objectos. Uma carta era um meio de viajar e de encurtar distâncias. Mas não supria a falta.
«(...) No fundo, isso inscreve-se plenamente nas minhas preocupações centrais: saber o que é o bem e o que é o mal; saber - ou procurar determinar - o que é uma vida humana e, sobretudo, o que é uma vida humana que mereça a pena ser vivida. E nisso tenho gasto a minha própria vida. É uma busca, às vezes insana, mas que vale a pena realizar.»
Guardara naquela caixa todas as cartas que ele lhe enviara, e relia-as a tempos; já quase as sabia de cor. Era através daqueles pedaços de escrita que conseguia provar a si própria que não o criara; que existia, que lhe escrevia, que lhe relatava sobre a sua presença no mundo e isso era dar provas de existência. Quanto ao local de onde lhe pudesse escrever, era-lhe indiferente. Tanto podia estar em França, como na Nova Zelândia, como em Lisboa, que a proximidade não diminuía o espaço que os separava. Isabel já o tinha alojado na sua cabeça. Era aí que ele habitava.
«(...) Assim se passaram... dias no país que foi, no seu tempo, o centro do mundo civilizado.
(...) P.S. - Descobri uma trilogia de um tipo que se chama Jean-Claude Guillebaud. Estou a ler o primeiro livro, que se chama La Tyrannie du Plaisir. Daí te mando esta pérola para reflexão:
"Le commerce avec la mort serai l'ultime aphrodisiaque de nos sociétés aux désirs éteints"»

quarta-feira, abril 20, 2005

Não é fácil morrer com método (III)


Leafless by artofgold


Já não provinham do acaso, os sentimentos que agora a possuíam. Outrora, quando eram imortais, todos os corpos, todas as pessoas, todos os ideais lhes pertenciam e não havia lugar a dúvidas. Podiam amar o amor errado, que o tempo estaria do seu lado. Sobravam horas inertes, e podiam ocupá-las sem objectivo e sem traçados estudados, pois não conheciam o valor do tempo nem da perda. Irreflectidamente, outro dia viria e logo a seguir outro, atrás de outro, era certo; muito tempo para remendar o tempo, os ideais e a procura. Agora, cada sentimento tinha cadastro. Desde que se tornaram mortais que se revalorizara o tempo, os ideais e os sentimentos.
Quando tentava perfilar a biografia da memória, era com espanto que verificava não conseguir reconstruir diacronicamente eventos passados. As recordações tinham-se agrupado de forma quase estanque, como se não fosse possível encadeá-las num curso lógico, ou como se a sua vida tivesse sido construída aos supetões e não linearmente.
Por exemplo, recordava de forma vívida aquele período da sua infância onde guardara o cheiro da areia negra, aquela areia que misturava a praia e a mata e que deixava as mãos tingidas entre os dedos.
«Ai, rapariga! Cheiras a maltês! O que é que andaram a fazer, que os fui chamar e não os vi? Onde é que se meteram? Andaram outra vez a desenterrar pinhões e a trepar às árvores?» A avó Joaquina brandia o poder de guardiã num tom peremptório, mas que não intimidava, já que os seus olhos não condiziam com o que inflectia pela voz de mando. Era fácil. Bastava corar ligeiramente enquanto lentamente se baixava a cabeça e se descia o olhar pela sua figura esguia e seca, de vestes sempre pardas, entre o preto e o cinzento, e deixar-se permanecer num silêncio respeitoso e envergonhado. Ela entenderia que o seu poder tinha sido acatado, que aqueles eram meninos travessos mas obedientes. Era quanto bastava para renovar a desculpa: «Foi só desta vez».
Agora, repetia-se esse ritual perante tudo. O perdão decorria do bom desempenho daqueles gestos tantas vezes ensaiados e experimentados, como se o essencial fora mecanizá-los e a eles recorrer em situações análogas. A previsibilidade era um jogo em que cada um tomava a sua vez. Errar um gesto era desequilibrar uma história, alterar-lhe abruptamente as regras e desafiar-lhe os preceitos. Serviu-se muitas vezes desses ensinamentos, adaptando-os às mais diversas situações. Não interferira na conduta alheia; não era da sua natureza alterar um jogo, se iniciado tacitamente. Entendia quando lhe dirigiam algum «Foi só desta vez» e cumpria a sua parte da mentira ao fazer transparecer que os aceitava. Não era apenas para obter uma paz que a tranquilizasse, mas para não lograr o desempenho do outro no jogo.
Errara. Ao alimentar uma linguagem que não era a sua, ao invés do equilíbrio, desmoronara-se interiormente. Pegava agora em cacos soltos, mirava-os e meditava. Quantas vezes lhe teriam dito: «Foi só desta vez»?

Não é fácil morrer com método (II)


Dream Science by artofgold


Coerente nas contradições, Isabel escreveu amo-te com a sua melhor caligrafia e deixou-se ficar a olhar para as letras meticulosamente desenhadas sobre a folha. Um espaço enorme, a convidar à escrita, e aquele amo-te ali sozinho, perdido como ilha rodeada de branco, a desafiá-la.
A intenção primeira era deixar que o punhal se cravasse nele. Imaginara-o entre o surpreso e o derrotado, quando lhe entregassem a carta. Aquela mensagem seca, sem mais explicações, era dúbia bastante para ser interpretada vezes sem conta, sempre com significado diferente. Sim, satisfazê-la-ia deixá-lo perplexo, para sempre preso àquela impossibilidade de esclarecimento. Imaginava-o de rosto fechado, lábios premidos em tensão e um ligeiro frémito a agitar-lhe a pele sobre as têmporas. Ficar-lhe-ia gravada, em tatuagem, aquela palavra amo-te, sem recurso a remoção. Haveria alguma coisa pior do que se ficar com uma dúvida que nunca mais se poderia esclarecer? Sobretudo por nada ser evidente, nem transparente; por nunca lhe ter sido dada uma certeza, apenas uma suspeição. O amor que nunca foi declarado, não existe. É como se fosse dada à palavra uma função contratual. Tudo o que existia sem ter sido pronunciado, não existia ainda. E podia-se decidir se o seria, ou não. Deixa-se um caminho livre por onde passear afectos e, não se reclamando provas, é facilmente diminuído ou enaltecido consoante as diferenças de humor. «Ama-se de muitas maneiras. Muitas são as faces e as linguagens do amor.», ouvira-lhe uma vez e retivera essas duas frases, como missangas descosidas a um bordado. Teria, então, oportunidade para se questionar sobre a natureza daquela mensagem. Uma excelente ocasião para ponderar sobre a leitura adequada. Ah, ironia das ironias! Debitava teorias inabaláveis, ideias formadas, robustas e inquestionáveis, e agora, ver-se-ia preso nas suas próprias certezas!...
Isabel divertia-se. Sentia-se vingada. Mas não apaziguada. Rasgou aquela folha, pegou noutra e desenhou, em letras minúsculas de imprensa, bem a meio da folha: amote. Voltou a olhar para lhe experimentar o efeito, e gostou. Olhou o relógio. Em seguida o papel. Sentia-se agradada com aquela decisão final. Um leve sorriso a cirandar no semblante e a respiração tranquilizara-se. Já nem ouvia o coração.