.................OU SEJA, UMA CONCORDÂNCIA IDEOLÓGICA....................................................................................................

segunda-feira, novembro 22, 2004

Indistante


A fazer esquina com os sentidos
A dar sentido a todas as esquinas
A aglutinar o inabraçável
Tu!
À distância de um toque num sonho indistante
O meu instante de romeira de abraços
A pendurar sentidos nas minhas esquinas de pregos flácidos
Eu!
Sem sentido que dê sentido ao exacto
A engolir sonhos dum trago
Que o sentido com sentido não faz sentido
E o consentido é regurgitar actos inexactos
Tu?
Derramado no sonho indistante
No meu instante de abraços

domingo, novembro 21, 2004

Estigma


Há palavras que são morangos
Há palavras que são tamancos
Outras, chão, céu, oceanos
À palavra solta, nova,
Que não vem de lugar nenhum – apenas chega
Que não quer ir ou voltar – espera
A essa, não a molestem
Não a obriguem a fazer prova
Que venha, se instale – nos beba
Que vá, se refracte – nos leve
Indiferente o que carregue
É a arribação que nos salva – o frémito
Limpa as asas ao pretérito

sábado, novembro 20, 2004

O desejo de ti


Se te desejo
sem ter sede
é porque
não é à sede que desejo.
Ter sede é um desejo
de água – inadiável.
E eu não tenho sede
(mas te desejo).
Se te desejo
sem ter sede
e
não és água inadiável
que sede é esta
que não é sede
de beber água inadiável?

O desejo de ti – invariável.

quinta-feira, novembro 18, 2004

Tenho dias. Ponto.

Pronto.
Tenho dias assim, eu sei.
Iguais a outros, diferentes, outros.
Dias sobre dias.
Sem sumo.
Nem rumo.
Desapegados e rotos.
Ponto.

Pronto.
Tenho dias apenas, eu sei.
Em que me torço e destorço.
Dias de pleno alvoroço.
Atropelados.
Acidentados.
A que lhes sugo o caroço.
Ponto.

Pronto.
Tenho dias imensos, eu sei.
Dias lentos, peganhentos.
Dias longos de espaventos.
Que me enchem.
Me preenchem.
A esses não os quero lestos.
Ponto.

quarta-feira, novembro 17, 2004

breve paisagem

vidro madeira e metal
construção acidental
sob latada de esperança
transparência volumétrica
conjugação assimétrica
a simular a balança
pendular beijo de vício
haste terra e precipício

a solidão mais gregária
do que o amor em comício

Erro ideográfico

Hades desfolhar livros
Até saberes que
Hás-de folhear saberes
E então, aí
Livre pela mão de livros
No Hades vais te perder

terça-feira, novembro 16, 2004

Aos perfeitos amores há-os (imper)feitos amantes

aos que se amam
.há-os que já não amam
aos que não sabem se amam
.há-os que não sabem que amam
aos que não sabem o que amam
aos que não sabem quando amam
aos que não sabem como amam
.há-os que querem amar
aos que não sabem amar
aos que não querem amar
.há-os que amam amar

sábado, novembro 13, 2004

atitude


pendurar
uma luz desnecessária de modo a ver-se
um tecto
num plano a norte
quando o que rasga o horizonte é
latitude?

buscar
o sol!
não esperar que nos encontre

nem que a rotação subverta
o movimento
projectando o recorte das próprias costas

cinturar
o eixo
ao pensamento é amestrá-lo e proibir
a pérola
à areia nas ostras

sexta-feira, novembro 12, 2004

rosa inicial

escrever sem risco
riscando riscos perceptíveis
é dizer nada e sublinhá-lo
fica o material no éter
a deleitar os olhos
adormecer é ser feliz
*
pegue-se numa rosa
encanto imediato – símbolo garantido, sucesso adivinhado
mas
melam as pétalas, esvai-se o aroma – fenece o gesto que se queria prolongado
a rosa roça aquele bem imediato
inala-se rosa num percurso de nariz, olhos – um tacto

decepe-se corola, cor – faça-se um trato
dizer da rosa apenas caule, seiva – ler-se a raiz
risque-se puro nesse risco abstracto
o concreto do cheiro – não o olfacto
*
dizer tudo é dizer nada, só artefacto
sobra a rosa inicial de quem a diz

quarta-feira, novembro 10, 2004

Da janela

disseram-me
que não vinhas ver-me à janela
disseram-me
que não há nem estrada nem passeio
não é rua onde caminho
disseram-me
que quando vinhas ver-me à janela
me olhavas sem olhos
que não ando enquanto caminho
tanto quanto me não vês
quando vens ver-me à janela

e eu caminhando
fazendo rua com os meus passos
sob a janela, tua
eu, por mor dela

fica a paisagem sem nada
dentro dos olhos que trazes para me ver da janela

terça-feira, novembro 09, 2004

Anoitecem diurnas cidades

dobro as palavras
como quem espreme lábios
que pingam beijos
mas que não saciam
nem gastam desejos

fecho-me os olhos
e os ícones elásticos
espreguiçam-se
e escorrem como óleos
langorosos
empastando-me os poros

anoitecem cidades
cada beijo põe uma luz em cada beijo
a alvorar insaciedades
fica-se assim
colado no avesso dos olhos
onde as imagens recriam o que não vejo
a orgasmar pelas vielas do desejo

talvez

no nada dizer se diz
o sim e o não, talvez
que o silêncio
urde enormes catedrais
magnete de peregrinas dúvidas
dízimo sempre adiado
como o vinho dentro das uvas

segunda-feira, novembro 08, 2004

Ama-se

Ama-se
É tudo
Razão rasante
A mirar o amor a amar
Escrevê-lo é minguar
Lê-lo é desgastante
Ama-se
É tudo

domingo, novembro 07, 2004

Intocar

Liberto as palavras quando
não lhes toco.
Sempre.
As agrafadas inibem
o uso
de outras. As intangíveis.
As que não escrevo não existem.
São imensas. Porque não existem.
Mas é nessas que a pontilha metálica franja
as que quero possuir.
O espaço em que o agrafo se dobra em arco e enforma
abdómen de
ponte suspensa sobre a água corrente.
É o lugar onde
se realiza o binómio da palavra.

É no vácuo
translúcido e impalpável
em que o arco se suspende
que sou tocada.
Ou seria
ponte suspensa sobre a água corrente.
Mas esse ser não é o meu.
Esse é o ser da palavra tocada.

Atrás do infinito alojam-se
sem tecto
as palavras que desconhecem
o meu tacto.
São as que não escrevendo evoco.
Livres de maltrato
e eu nelas suspensa
em arco.

Tudo o mais são frases ou
aquedutos fossilizados.
Que transportam o mesmo.
Mas nunca o vácuo que adormece entre a
ponte suspensa sobre a água corrente.

quinta-feira, novembro 04, 2004

O vento nas costas

Não te pergunto que recado me trazes.
O vento nas costas é símbolo bastante
Ouço-o trazer-te e levar-te
Indiferente à arte
Nem sequer pergunto por que
É bem o que me fazes.
Chegas e partes.
E o movimento fica retido nessa imobilidade
Incontido porque não se contém
Por isso não chegas nem partes
És o vento nas minhas costas
E eu ouço-o trazer-te e levar-te.
Ouvi-lo é a minha arte.