.................OU SEJA, UMA CONCORDÂNCIA IDEOLÓGICA....................................................................................................

quarta-feira, junho 23, 2004

Algodão doce

Ensejo monogâmico dialogante
Salta nas folhas, reflecte o instante
Sabe da lauda quente que arrefece
Sabe dos infinitos
– enlouquece!
Cristalizados no desejo imperecível
De dividir o indivisível
De arrecadar os espinhos e os louros
Todos seus! Todos tesouros!

O carrossel não pára e, devagar,
Agarro o algodão doce
Antes que fosse
Perdido o tempo, gasto o momento
E ter que, já rendida, ver-te chegar

segunda-feira, junho 21, 2004

Os passarinhos fazem os ninhos...

O tempo parece não passar, no campo.
E isso serve para quê, não me dizem?
Para perceber que a grande cidade engole os minutos, sôfrega?
Por isso o design dos relógios é importante; para sabermos que, ao tempo, se muda a montra!

Os passarinhos fazem os ninhos...
Fazem os ninhos para quê, não me dizem?
Coitados, deles – dos passarinhos...
Continuam a chocar filhinhos, aos molhos
Sem saberem qual a importância do design dos relógios!...

Solstício

Rapazes nus
Cortejo de luz.
- Perfilam
Maduro mosto
Do sol no rosto.
- Saciam
No morno abraço
Deita o cansaço.
Prenhe e vencida
Saudando a vida
Destila o estio nos olhos
- A rapariga

quinta-feira, junho 17, 2004

Montagem

calar do humano o defeito
sussurrar o que vem de dentro do peito
como quem murmura do nome apenas o lume
silenciar do tom o azedume
- ah! só usar a luz do vaga-lume!
ciciar na pele os dedos
aquietar o vulto dos segredos
trautear das músicas os glissandos
rumorejar feito leito de oceanos
segredar cascatas
sibilar regatas
zarpar por esses mares sem ler planos

segmentos breves
cerzidos como rendas – leves, leves!
fluxos entrecortados
como fotogramas desfocados
perfilados na memória de flanela
animados pela vontade feito tela

e o filme projecta perfeito
o sonho que teima em bater no peito

segunda-feira, junho 14, 2004

A viagem

Olhar para dentro e ver o mar;
Soltar a jangada e não ancorar.
Que, a viagem?...
Faz-se sem tempo!
O sem limite é ter o mar por dentro
E navegar...

terça-feira, junho 08, 2004

PERSONA

Lamento
A maquinaria do ciúme, mas
Saboreio
O licor que ele segrega.
Invento a revolta.
Sento-me nesse banco de tristeza e
Desfruto
O prazer de me sentir só.
Sou louca!
Inventei-te para me martirizar e
Cumpro
A punição que não mereço
Para me ilibar
Do amor que
Não sinto.
Reconheço a máscara do artista e
Prossigo
Na representação.
Espero conseguir deitar-me
Satisfeita e farta e
Ter tempo
Para me aplaudir
Na última cena.

segunda-feira, junho 07, 2004

Dois hemisférios

Os braços largados ao longo do tronco
Em descompasso, o ritmo das pernas
Ideais adiados,
desistência,
malogro
Engenho automático que inibe quimeras
Aventura adiada,
simulacro,
enfado
Rapsódia de vícios em palco de guerras
Supera-se o ritmo de binário a ternário
O jazz
Em tensão
Cruza notas no espaço
Refracta-se o som
Perdeu-se o abraço
em partículas insanas
reais adultérios

Desmembra-se o ser em dois hemisférios

domingo, junho 06, 2004

'Tão?

Fiquei colada nas lanchas dos pescadores. Ora, que grande novidade! Quem tem a beira da praia por meias, dificilmente habitua os pés a sapatos ou palmilha, de ténis, montanhas.
Os pescadores lançam os «'tão?» naquele meneio de cabeça, entre o hirto e o desconforme, porque o hábito de carregar aos ombros as redes lhes tornou os músculos tensos e os seus gestos formam peça inteira de torso, pescoço e olhar.
«'tão?», devolvemos, repetindo o ritual da saudação que, embora a inflexão monossilábica se cante entre o registo de pergunta e exclamação, tacitamente sabemos não carecer resposta. O cumprimento é assim a coisa mais parecida com o polido «how do you do?», seguido do «how do you do?», já que ninguém se interessa em saber como realmente vai o outro, ou como se sente o outro, ou sequer o que faria com a resposta do outro, caso ao outro lhe desse para responder.
«'tão?», como o som que uma onda mais forte faz contra o casco dos barcos. Previsível cacofonia do mar na boca, que a tendência é repetir-se o que mais se ouve. Grava-se na mente os sons da praia, como à pele se cola o cheiro a sal e se desbota a cor da alma!
Como é fácil reconhecer os pescadores!? Há neles um silêncio de palavras, que verbo é o mar! E uma postura intemporal, como parda se torna a tez fustigada de sol e sal.
Deles sei o que deles tenho: a certeza de saber que o mar é novo todos os dias, mesmo quando a lua se nega a pendurar-se no breu desse outro mar, que é o céu. Deles sei as ânsias e os medos, como se guardam os segredos que revolvemos com os pés na fina areia.
Estou sentada na escarpa da rocha e canto ao cheiro do peixe fresco. Não me mexo. É a brisa que me vem agitar os membros e é esse movimento que, não sendo meu, me notam.
«'tão?» - fala por mim a rocha, olhando as lanchas na água, salpicadas de gaivotas. E adentro o mar...

sexta-feira, junho 04, 2004

O longe
ao perto
fica tão pequeno!

quarta-feira, junho 02, 2004

Porque eu gosto

Doem-me os lábios de tanto beijar
Porque eu gosto
O carvão da boca a tatuar palavras
Pelo teu corpo, meu mural
A língua lenta a desenhar frases sem sentido
Pinga, esborrata
Invade a folha da pele
Sulquei a carvão as sombras da vontade
Graffiti expondo gritos pela cidade
E escrevo beijos
Preencho desejos
Porque eu gosto
Vão caiar o muro do teu corpo
E eu não gosto
De novo branca a folha da pele
Os poros sufocados pela cal
Os filamentos da turfa asfixiados
Sei onde os gravei
Quase os mostro
Entaiparam-te os beijos marcados
Com painéis por todos os lados
Mas eu vejo-os
E desejo-os
Porque eu gosto

EVA MULHER

Esses teus olhos indiscretos
Tão cheios de malícia incontrita
Fome e sede de maçãs proibidas
Lembram-me a eva que não sou
Mas a serpente que envenena
Do adão que habita em mim
Ficou-me preso o caroço
Das palavras o peso
Que sufoco
Olhas-me inquisidoramente
Sedento do amor inexplicado
Faminto da mágoa em que me banho
Inundas-me de amor
E eu chafurdo em pecado

E adormeço feliz
Neste corpo podre de eva

terça-feira, maio 25, 2004

Umbigo

Na palma da tua mão cabe um mundo
O tempo inteiro compactado num segundo
Ver-te chegar é repetir os passos
Ir do presente ao presente
Estar ciente
De arrecadares de ti para ti todos os abraços
Narciso em incesto
Deitas-te na folha
Frente e verso
Reflexo do amplexo
Umbigo do excesso
Criação que não perdoa
Na dádiva a retro pessoa

segunda-feira, maio 24, 2004

Poema triste

Hoje é dia de poema triste.
Demora-se o inverno.
Tudo o resto é solidão e desespero.
Nada mais existe.
A promessa de vida esgota-se no eco.
A alma às pregas, como dunas num deserto.
Estilhaços do que há-de ser varrem o chão.
Estranha calma em que o caos persiste.
A quietude que ensurdece após o trovão.

NA PEDRA DO PORTO

Os bancos de areia
Que aconchegavam as marés
Mudaram-se para aquela praia
De ventos calmos
E cheiro a maresia de gaivotas.
As ondas agigantaram e deram à costa
Esmaecido o azul e em branco a espuma.
Que todas as tempestades
Conheçam agora calmaria.
Molho os pés nessa água lavada
E das conchas que semeio
Seleccionei as mais puras em forma e cor
Para te fazer um colar.
Nele encontrarás
Mar e areia
Cheiro húmido a sal
Canções de pássaros pescadores.
Usa-o
Sempre que te sintas perdido
Num caos de gente
Sempre que procures
Um cais de pessoas.

Eu estou na pedra do porto
Aceno-te amizade

quinta-feira, maio 20, 2004

ONDAS

Parto para a longa viagem
Rumo sempre ao cais de maresia
Euforia em cascatas de sargaços
Ritmadas pelo sabor a agonia.

Este mar que me engravida de lua
Enche-me de areia e sal; as redes rotas.
As barcaças estão na costa, breve rua
Onde vagueio – qual gaivota! -; as mãos soltas.

Olham-me marinheiros de águas doces
Sagazes dos ventos que me dilatam.
De pouco me serve o rio; secam-se as fontes

E já os sóis poentes me maltratam.
As sereias, já só habitam os montes
E as musas, é sem dó que as escorraçam.