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terça-feira, maio 16, 2006

caindo lentamente


eu moldo a almofada ao sonho
de cada noite
          sem nada mais
preparar que da cama
a tua parte
          depois o amor
se encarrega do sono
da tal morte daquilo que parte
o despojo do corpo largado e inerte
                 livre
          de mim sem planos
                        ca
                        indo
                        lent
                        am
                        ente
no poço que mede muitos homens teus
          até que luza à tona a claridade

sexta-feira, maio 12, 2006

Agora


eventualmente retorno
à vida que suspendi por tédio, por destempo
em rés-migalha. quando se catam minutos
e se colam a um mostrador, rodam ponteiros
no sentido dos ponteiros mas nunca - nunca! -
no sentido do amor. a dor aprende-se
de cor, ajeita-se ao seio e suga, suga
o vazio, no tique ganho que gasta
até mesmo o que não há.
diverte-se aquele
para quem as horas são um jogo
de movimento, brincadeira entre ponteiros
que se encontram uma vez por hora.
o maior tapa o pequeno e lemos
hora-e-minutos mesmo quando
o braço grande é o que tapa o da hora…
pela vida fora, como se pára a ideia
se nunca pára o agora?

quinta-feira, maio 11, 2006

Eventualmente retorno


Eventualmente retorno
Como a luz matinal às ruas estreitas
Esgueirando-se pelo que pode
Pendurando-se em janelas
Ficarei parada na tua
Quando trincando torradas
Esvoaçares melenas molhadas
Olhando o Tejo ao fundo
Terás sardinheiras nos lábios
E os pombos da mansarda
Disputarão comigo migalhas
Arrulhando a despique o silêncio
Do meu desejo profundo

Na paisagem eventual
A cidade é o meu capricho
De manhã, de vida, de mundo

segunda-feira, maio 08, 2006

Do amor a sorrir


Vou te falar do amor
Do amor a sorrir
Daquele amor sem horas
Ou que não se importa com as horas
De dormir
É uma outra forma de te amar na eternidade
Como se não importasse a idade
Mas a arte de te amar
Amando como quem arde
A sorrir
Talvez te lembrem meninos
Que brincam de próprios meninos
Mas assim é o amor
Aquele que cresce sem dor
E se espalha
Apagando a lembrança navalha
Que rasgou em nós o pavor
Vamos brincar, meu amor
Antes que o tempo se valha
E nos entregue a mortalha
Que tapa o sorriso
A dormir

sábado, maio 06, 2006

se é ave que canta...


não adianta
a recorrência sonora
qualquer ave canora
sabe
que o canto se faz
da sem-vontade
é uma espécie de grito
impresso no corpo
como a asa que
sabe
do voo
ainda que queda
no ninho piloso
o canto ness’ave
não sabe que
sabe
que é d’ave que canta
fá-lo somente
recorrentemente
somos nós quem se espanta
com a própria garganta

terça-feira, maio 02, 2006

insónias


são sempre tuas
as minhas insónias
como tuas as mãos
se me acercam
magnólias
livre me tenho - cativa
da tua posse
se me visita
que minha não é - tanto
quanto nada é
meu - só tua ser
se minha não sou
quando - de mim
me roubas

quarta-feira, abril 26, 2006

Erra, amante!


Não quero ver horizontado
O sonho pequenino pululante
Que muda e nasce a cada instante
Em que o invento verticalizado
Como o amor - o amor de amante -
Que vive a vida própria do errante
Que erra e segue - erra e fica -
Ululante cada vez que é inventado
- porque, se o é - erra, amante! -
Preso és tu que o crês aprisionado

sexta-feira, abril 14, 2006

ficando


chega aqui
depressa
fica aqui
ficando
como sempre estás
mesmo não chamando
fica aqui
sem pressa
voltarás para dentro
de algum pensamento
que urdi
amando

sexta-feira, abril 07, 2006

também digo apenas


tenho pena que não entendas
como as palavras podem ser
barcos pontes passeios
ou simples festas - revolteios
e te entristeçam
também as digo sem que mas peçam
e passo as pontes
páro nos passeios
embarco nelas - pois são meus veleiros
e parece estrangeiro se me uso delas
enganas-te tantas vezes
quantas vacilas na memória
ao tentares ler-me história
se ao menos entendesses
as palavras em que apenas
livre e alegre
vou soltando a estória

terça-feira, abril 04, 2006

Na rede


Essa daqui, menino,
tem uma pele que só pede trópico,
uma sede de cachoeira e pés de areia,
cabelos na rede ao luar…

O pensamento
acoitado por vontades bárbaras
açoitado pelo pugilato de amores apáras
e no peito
a sem-vergonha do querer a inflar…

segunda-feira, abril 03, 2006

também é fala

era vária a palavra
por mais omissa que num não digo se escondesse
talvez mesmo por isso
o não disse disse tudo e se oferecesse

silêncio lhe chamaram erradamente
dando um nome à tal palavra não falada
silêncio é nada
não se equivoque o nome ao nomeá-la
que a palavra que não se dá
também é fala

sábado, abril 01, 2006

contigo


contigo aqui
na ponta dos dedos
- como quem diz no extremo de mim -
é longe suficiente
para nos sabermos ao pé
juntos é o contigo mais sincero
- nunca o em mim -
ainda que em nós o outro seja outro
e ao outro queiramos mesmo
tantos somos em nós
quantos tantos são outros no outro
que em nós descabemos
assim se dá que no outro outros achemos
de nós - de mim e de ti -
e de nós em nós - tantos outros de nós outros -
que de nós nos perdemos
somente juntos seremos os mesmos
sem outros outros querermos

contigo aqui
na ponta dos dedos
- como quem diz no extremo de mim -
pensei-te outro e não a ti
assim se trai a razão nos enredos
se em mim estás se te penso e não estás
estarás outro de ti em mim outra - a dos medos
e não aquele outro tu está aqui

quinta-feira, março 09, 2006

Vulgar, comum


| unos e indivisíveis, agrupam-se, reconhecendo-se iguais. mas não se somam; justapõem-se |

dizem que me viram
em várias ruas ao mesmo tempo
e eu acredito
vulgar serei, comum
nas ânsias sem enredos das esquinas
por certo outra como eu
ou várias meninas
terão roçado as mágoas e os cabelos
sobre um sorriso largo
igual ao teu, comum
cheio de enredos de ânsias pelas esquinas
por isso as ruas todas
cheias de mim, vulgares serão
enquanto tu, convicto
rasgares sorrisos largos
eu acredito

sábado, março 04, 2006

Um dia, depois


[… a ti, que da vida entendes a liberdade do dar-se inteiro, ainda que correndo o risco de que não nos entendam - mas colhendo a satisfação, se, de entre mil, um houver que decifre o eco.]

um dia dir-me-ás tolas palavras
todas lisas de metáforas
- novas, novinhas -
nos olhos lume brando a acender brasas
e arder no chão sem chão
- as mãos gavinhas -
riremos como riem os amantes
sem nada se dizerem que ao mundo interesse
esse sumir-se-á
- quedo, calado -
nos trilhos que lhe conhecemos do antes
teremos pela frente coisa nenhuma
pois mais não quer que o querer desses instantes
- a fúria mansa, o dorso dos errantes -
os que nascem depois da morte pura

quarta-feira, março 01, 2006

Orbital


Não há descanso
Dentro da poesia.
Se palavras emprestadas
Usadas em desalinho
Desajustam as mensagens
No dizer não há conforto.
Nem ideias em confronto.
Fica a ânsia de as dizer
O poema por fazer.
Adiada fico apenas
Na órbita desses poemas.