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segunda-feira, outubro 18, 2004

Amor sujeito

Amor sujeito.

Encosto-te
À esquina
Da palavra
E nela
Me deito.

De que outro jeito?

quinta-feira, outubro 14, 2004

Conta-me histórias

Conta-me histórias
Quero ouvir palavras novas.
Pode ser antiga e pura
Quero daquelas que perduram
Sem nexo ou linear
mas agora.
Que enovele ou distenda
Que regenere ou surpreenda
Daquelas que só deslumbram
Pode ser recente e suja
mas agora.

E demora...

quarta-feira, outubro 13, 2004

Ainda que não repares

Se reparares...
Um risco tosco mistura parcerias
Doce e amaro certo e errado

Ímpares pares
Reclamam a assimetria dos lugares
Se os reparares

Se a reparares
A cegueira é simétrica
Não vislumbra para lá da recta

Destapa o pudor de sobre os olhos
Os olhos sobre todos os lugares
Se reparares...

terça-feira, outubro 12, 2004

Bocas sobre bocas

O que sentes
É a presença
Esborratada
De outras bocas
Sobre as bocas
Nesta boca
Derramadas

Bocas novas
São a tua
Que conserva
Virgem prova
Que essas bocas
Nessa boca
Se renovam

Cambiante

Mulher
Que sonha
Ser tomada
Quando toma
É a si que toma
No sonho
Do outro
Se transforma

sexta-feira, outubro 08, 2004

Obra d’arte

E corta
E rasga
E parte

E corta
E rasga
E parte

Assim se faz a arte

E molda
E solda
E cola

E molda
E solda
E cola

Assim se faz a obra

quinta-feira, outubro 07, 2004

Fachada

Devolvo-me à lembrança
Do que fui.
Pereço entristecida
Deitando as mãos à vida
Sem norte
Dando a sorte por vencida.

Recordo o diamante
A lapidar.
São vidas deslaçadas
Esperanças adiadas
Quimera
A dissolver-se devagar.

Fachada restaurada
A rigor.
Colunas reforçadas
Paredes escoradas
Palácio
Devoluto sem calor.

terça-feira, outubro 05, 2004

Pintar murais

sempre as palavras
escondidas nos gestos
cíclicos e pontuais
a encharcar incêndios
a propagar tempestades
a saltar do dorso de verdades
escancaradas ou veladas
intemporais

anseio sempre por palavras novas
espero a reinvenção da duração das horas
para que se dilate o tempo
se evada da cadeia do momento
e se sinta a urgência
de pintar murais

mas os silêncios
resistem à erosão vagarosa
lapidam-nos memórias
roubam-nos pedaços
mutilam-nos sem parcimónias
e as palavras encostam-se
rendidas e mal nutridas
às investidas das horas

salto desse dorso e peço
que me chegue novo alento
que não se canse o tempo
de arrancar e limpar palavras
de revalidar as mais usadas
de mas perfumar como magnólias
ah! que inodoras demoras!

se me acerco das palavras
e se ao tempo mais tempo rogo
é porque sei que assim morro!
abraça-me forte em socorro
dá-me do amor o soro
com que se contam novas histórias
protege-me, ó tempo
do atropelo insano
com que se tecem silêncios
pejados de más memórias

sexta-feira, outubro 01, 2004

muda Lisboa

alguém
desapareceu
definitivamente
nada disse
sua maior cobardia
corro as cortinas
metálicas
espero que chova
no silêncio
de palavra
muda Lisboa

quarta-feira, setembro 29, 2004

sensações

semicerro sinais
são ciclos que sei
e os sabendo os cicio
sussurros de cios
serenos, sensuais
sinistra sequência
sem sexo cerzido
ou sexto sentido
que salve silêncios
simples solfejo
sibilina sonata
salpicos sofridos
sem sabor a sal

segunda-feira, setembro 27, 2004

Amo, logo insisto

habita-me o hábito
da tua ausência
inscrito em fragmentos
mal aprumados de indiferença
Amo, logo insisto
repego pedaços
soltos ao acaso
sem acaso que convença
Amo logo, insisto!
desenho de cor
revendo esboços
da tua presença

sexta-feira, setembro 24, 2004

Tenção

pedes possíveis e respondo infinitos
ofertas lições e escrevo canções
pego sempre no que a ti te sobeja
não conheço a soberba nem sei a inveja
embora te veja planando num espaço
finito de amor, enleado em clamor
carente de abraços que somem pedaços
que tragam justiça além da cobiça
que dêem sentido ao que trazes nos braços

triste a sorte de quem perdeu o norte
a façanha maior de se ser o herói
da sua rua, pequena e tão escura,
que qualquer lampião fundido seria
tocha ardente, candeia de gente

mas medes os passos não pelo que sentes
por isso te auguram, almejam, asseguram:
a imagem perfeita da solidão futura!
também sei, porém, que te é indiferente

seguram-te estacas de ideias baratas
lealdade, a corrente; mas nunca evidente
perdido em abismos relevas avisos
não vá o futuro unir-se ao presente

quinta-feira, setembro 23, 2004

Tolda-se o céu de verão

Lentamente se pressente
A náusea da suspensão
Réstias quentes, derradeiras
Desse teu lado, as primeiras

Últimas, na minha aflição
Sereno s’instala o outono
Calor em pleno abandono
Em gesta de redenção

Deste meu canto poente
Se sente abrir a nascente
Alvorada em tua mão

Arrumam-se sol e maresia
Cai a noite mais vazia...
Tolda-se o céu de verão

sexta-feira, setembro 17, 2004

Na língua

Na língua existe um mundo
de palavras
em estio e cio
ou negras e obscuras
- gosto de as testar
e saber maduras.

Aglutinam imagens
que sugerem viagens
redondas ou pontiagudas
traçam tangentes
de sensações
- plenas permutas.

Na minha língua
descansam pedaços
de outras línguas
- estilhaços engastados
que se transmudam.

quinta-feira, setembro 02, 2004

Para lá do que há

Para lá do que há se mostra o que é
O que é se esforça por parecer
No que há, detrito se apresenta
Descansa na espera de vir a poder
Ser visto para lá do ser
E ser o que parecer não pode
A imagem que se resolve
Projectada sem muro haver