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sábado, julho 23, 2005

Insensatez

Se eu fosse sensata
Anotava os traços de céu sem lhes chamar
Firmamento e esquecia o óbice das pombas
Essencial
- céu sem bombas
Apodo morto
Celestial

quinta-feira, julho 14, 2005

Janela

O meu nome existe quando o
proferes. Só existo
quando me nomeias. Dito assim
na tua boca o meu nome
soa a pessoa construída.
Desvacilo em esferas
errantes por dentro do vácuo
anónimo da inexistência. Faz sentido
o corpo aos gritos; a geometria
da carne e nervos - e o céu é maior
do que o rectângulo em que
o capto
aqui da minha pequena janela.
Tudo existe. O meu nome existe
dentro do aro dos teus lábios - é maior
o meu nome quando o proferes
fica o céu pendurado
não há aro nem janela.

terça-feira, julho 12, 2005

A historiografar


(monólogos da memória)

Não me lembro já
- Quando foi que me esqueci?
Deixei-te
(Lembro agora)
Parado
No sítio onde te perdi
...
(Devia ter-me agitado.
O semblante carregado)
Foi então que apercebi
- Onde foi que me perdi?
...
Ah!
Tentava buscar-te
(A lembrar de me lembrar)
Mas fui escolher ao acaso
O vazio do teu lugar
...
(Sem querer, ficou gravado.
O vazio no meu olhar)



(monólogos da memória)

Olha,
vinha trazer-te verdades e retraí-me.
Mostro apenas o gesto que me ficou parado nos lábios.
Lê comigo. A expressão que não conheces
Também a não sei explicar. Lê-a
Conta-me o que vires.
Olha,
se me vires dentro desse gesto
Diz-me que regresse.
Tenho saudades de mim.
Cansada de andar encolhida a dizer
Nada.
Fazes-me falta.
Precisava saber-me em ti.

quinta-feira, julho 07, 2005

Sonhar jasmins

Será o sonho que comanda romper
escritas, métricas
Lançar gritos, inquietar poetas
Arrancar o que não
queima. O sonho oscila
naquele espaço
Onde nem tédio
nem cansaço condenam
tudo o que se ama. Sonhar
faz parte do refúgio
Enche de sons, pedra e búzio
E seca a mais pútrida
lama.Crescem jasmins
na dobra do leito
E o coração vibra
perfeito na condição que o sonho
emana

Sonhar liberta - jura o poeta
Empresta a paz a quem
se ama. Livre se evola, refaz,
retoma. Prende o meu verbo, solta-me
a fala. Nomeia
o jasmim que nunca se cala

domingo, julho 03, 2005

Pluriverso

Sem ti
E os dias rolam
- Como vês
Há equilíbrio
No universo -
Mas não neste verso
Sem ti
É a outra face
Equilibrada
- Um pluriverso -
E as noites que rolam
Sem fim

sexta-feira, julho 01, 2005

Água

Nunca mais digas
Água
Que me dás sede
É tão difícil
Resistir a
Água
Que seco no lago
Da tua sede de
Água
E as metáforas com
Água
São tão insípidas e incolores que
Água
Torna-se sem sede de
Água
Que dá sede
De ter dores

Ah
Água
Sede
A lavar amores

quarta-feira, junho 29, 2005

Encontrei isto dentro de um poema

Encontrei isto dentro de um poema
Estava deslocado
Sem nenhum sentido estar ali ao lado
Das palavras quentes
Dos sonhos latentes
Parecia gralha dentro de um morfema
Encontrei isto dentro de um poema
Estava desfocado
Quase lhe tocava, mesmo ali ao lado
Parecia halo, até dava pena
Encontrei isto dentro de um poema
Estava transviado
Pertence-te agora, já podes guardá-lo
Poderá um dia dar novo poema

sábado, junho 25, 2005

Sem rasto

Abri a excepção de te acolher
Corri o risco de dar forma aos teus silêncios
Toquei o mistério, padronizei o limite
Devolvi-te à tranquilidade dos teus segredos
Desaparecerás do traçado das minhas memórias
Como o risco fugaz da passagem de um cometa
Na órbita dos meus devaneios
Só o firmamento reterá o trajecto
Da extinção desse brilho no meu peito

quinta-feira, junho 23, 2005

eternidade

eternidade
dura
o
instante
em que
te abraço
assim
distante

ilusório
contorno
do espaço

não há
tempo

cansaço

quinta-feira, junho 16, 2005

A flor

Pontilha-se o olhar de constelações
que não desaparecem com o bater das pálpebras.
Experimentei a álgebra, a sintaxe,
o sossego das casas.
As borboletas a esvoaçar contra as paredes
do estômago.
Não há sabedoria bastante.
Pontualmente, os dias sucedem-se e isso vê-se nas flores.
E eu, constato que respirar é involuntário,
como despropositado o teu corpo
deitado no meu sonho.
Há uma permanência que asfixia.
Só queria uma ilha a sul onde acolher os pássaros.
Por isso, recolho a flor atrás da nuca
e sustenho a cor com as mãos em concha.
Os sons voltaram para cima dos ombros
mas cantam baixo
para que não os ouça.
Enquanto tudo permanecer inalterável
a minha vontade é um supérfluo logro.
Inventa-se a azáfama na paisagem do louco.
Não há sabedoria bastante.
É um instante longo e doloroso
que antecede a inércia da abastança.
Sobra tudo quando falta
na bravata do futuro
a flor da esperança.

quarta-feira, junho 15, 2005

adjectivado

amplo e inútil
feroz e táctil
desproporcionado
enredo de pele e medo
; volátil
frágeis constantes

perverso
o amor
sem amantes

segunda-feira, junho 06, 2005

Dos poemas vegetais

podemos açoitar o ar
lamentar
as horas onde crescem
vegetais
que o poema dá-se
noutro lugar
de nada serve a poesia
que cresce nas hortas das horas

o lugar da poesia
não está nas horas vazias
cresce nos dias
sobretudo naqueles onde não crescem vegetais

de nada serve a poesia
se não cresce nas hortas das horas
irreais

sexta-feira, junho 03, 2005

Está combinado.

Está combinado.
Mato-te a ti. Hoje.
Amanhã. Trocamos.
Vamos sentir. O alívio.
Permutado.
É mesmo assim. O amor.
Concordo. Subvertamos.
Matas-me a mim. Hoje.
Amanhã. Trocamos.
Vamos cumprir. O amor.
Está combinado.

quinta-feira, junho 02, 2005

Insecto


na indigência de afecto se oferece o sexo no extremo do corpO
zune o insecto no amplo espaço vagO
que historia o amoR
que há entre ti e o diabO

quarta-feira, junho 01, 2005

Sorvo breve

Não é nossa
a casa.
Nem dos corpos
somos donos.
Não há, por isso, nem
posse, nem abandono.
O que nos capta
é memória
Pela passagem, o
tempo empregue
E quem se
usa, acrescenta
Não abusa, reduz ou
tira para além do
Sorvo breve.