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sexta-feira, dezembro 24, 2004

Um céu

de empréstimo
entusiasma-me a luz
e deixo-a escorrer
sobre as sombras cosidas que formam o breu
no manto da noite quero
estrelas bordadas com cheiro a canela
a lembrar que há um céu

terça-feira, dezembro 21, 2004

Coleccionador de sensações

Um fio de cabelo enrolado num dedo
Um beijo na pele a propagar-se em tropel
Um retrato a sorrir repousado a dormir
Um joelho que se agasta pelas escaladas na rocha
Um caderno com desenhos coloridos de desejos
Um vestido comprido a lembrar coisas de vidro
Uma música em vinil para uma tarde senil
Uma salva ora pomba ora projéctil de bomba
Uma família em decréscimo que se descola o empréstimo
Um amigo destruído em orgulho combalido
Um café arrefecido pelas tertúlias vencido
Uma pele em escamação pelo fustigo do verão
Uma chávena sem asa trazida de outra casa
Um coral feito de renda embrulhado em papel de seda
Um projecto falido no saco de um bandido
Uma rosa pot-pourri de um concerto que eu vi
Uma viagem de sonho cheia do pó de abandono
Um coração enxertado pelos cortes do maltrato
Um brinde renovado por cada ano derramado
Um futuro adiado preso em teias de passado

domingo, dezembro 19, 2004

Partir

[Se houver locais seguros
Servem para nos aquietar, sabê-los.
Alcançá-los e permanecer?
- Morrer.]

O medo é latina força
Desafio de mar e abundância
Cabo dobrado pela esperança
Bolero, tango, vertigem que roça
Rodopio sudado, sovado,
Guitarras dobradas pelo fado
Ágil de encanto
Carícia rubra de espanto
Que parte em caravelas
Se enleia nas coxas das pretas
Traz pimenta caiena, canela
Envolve em aromas exóticos
O sem limite dos portos
Dobra o norte, refaz a arte

Escorbuto é o risco da sorte
Naufraga só quem não parte

momento acidental


domar silêncios
- vergá-los ao jugo da vontade -
recebê-los com chá de pinhões e incenso
deixá-los percorrer a fazer alarde
e se instalarem no bordo do tormento
no meu acidental momento
de atenção alarve

pirilampos inusitados torcem
a monocórdica frase
em poesia
uivando palavras novas
sem que tenha tempo
para as saber

só sei
da aspereza dos vazios
incrustados na língua
a fosforescer

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Natalstício

inventaram o natal
para me arreliar – só pode!
construíram presépios
arquitectaram afectos
para remediarem o mal – só pode!
de que me servem
os gingle bells?
os joyeux noëls?
máquina infernal de céus inóspitos
a perpetuar a romaria de amores agnósticos
- só pode!

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Dispersando flores

passar as mãos pelas
palavras
para as expurgar de
dores
e deixar-se enlear na teia dos
segredos
assim, sem pensar amores
degredos
dispersando flores

Aos pares


Morre-se aos pares
Faz mais sentido
Perder-se em labirintos
De umbigo
É só depois

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Parto em dois

O que é dado saber?
Parto em dois.
O que é dado viver?
Parto em dois.
O que é dado oferecer?
Parto em dois.

Uma parte sempre oculta
Na unidade mais arguta
O que é dado
Parto em dois.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Do outro lado

Do outro lado
Existe um ser
Semente apetecível
Em maçãs dissimuladas
O pecado é já saber

Ascende em músculo de querer
Como alvoradas
Camufladas
No lusco-fusco a entardecer

Expiação

Estabeleço um contrato
Só, comigo
Não me quero em castigo
Quero a calma
Não o bulício
Desafiante do vício
Façamos um pacto
Abandona-me
Quero-me inteira
Sem emoções
Alucinações
Musas de cheiro ou tacto
Neste momento exacto
Estripo as ânsias do quarto
Ressaco dessa canseira
Sem grilhões de bebedeira

domingo, dezembro 12, 2004

Estado líquido

Não tenho como escorraçar o rio
Que me cerca os sonhos
Se os apartar em ilhas
Não serão mais sonhos, mas periferias
Logros submersos, os meus passos
E istmos intransitáveis, os meus abraços
Pesar-me-ia toda essa água
Sem odores salivados por sargaços
Não vou escorraçar esse rio
Banha-me os sonhos
Leva-me em ombros
E eu flutuo dentro do sonho a gemer cio
Não tenho como ignorar a enxurrada
Suga-se o beijo e solta-se o rio
O resto é flama incendiada em desvario
Mais nada

sábado, dezembro 11, 2004

Exortação


Vamos fingir
Fazer de conta
Que o nosso bocado de tecto
Tem frescos magníficos sem marcas de insecto

Vamos ampliar
As abóbadas do céu da boca
E ecoar espasmos lindos de deixar a voz rouca

Façamos a sério
Tudo o que encerra ganas, virtude e mistério
Sem filigranas de gestos barrocos com vício de tédio

Já sabemos
Agonizar sem espantos
Que o ócio é negócio judeu sem retorno
E o tempo urge se se sente sem dono

Façamos amor amando
Em excessos de arte
Até ao enfarte
Que desperdiço tempo se o momento não for amar-te

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Basta!

Quando tudo se repete
É tempo de partir
E dizer basta!

Renovar os olhos a olhar o mesmo?
Deformar o mesmo com os mesmos olhos?
Renovar o mesmo renovando os olhos?

Cenografia gasta
Reinvenção de escolhos
O olhar partiu-se
Já nem sobram olhos
E o horizonte afasta-se

*
Insistir em sóis poentes que adormecem flácidos
É negar auroras fartas no baixar dos braços

Capitular


Espalhar-me à toa
Sem precisar os poisos.
Que me importam os cais
Se o mar me chama?
Ficar aos poucos
Sem inflar as velas
Na modorra morna?
Agonizante exílio
Que asfixia os poros!
Melhor que soçobre
Em infames voos
Que jazer tranquilo
Entre os vivos-mortos!

quarta-feira, dezembro 08, 2004

de caminho,


de caminho,
deixa-me dizer-te
que me sinto ampla de pele
restaura-se o poro
de caminho,
deixa-me dizer-te
que as mãos que sentes abertas
não se fecham
inflamam o tacto
de caminho,
deixa-me dizer-te
que persigo o verão de sol sincero
pois que os caminhos
que me deixas que te diga
de caminho,
levam sempre
ao infinito de outros caminhos
encharcados de sol
plenos de abraços
e tactos
e verões
por onde eu caminho
de caminho,
apenas tu esbarras
na opacidade dos silêncios
deixa-me que te diga