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quinta-feira, maio 08, 2008

a minha rua


há uma fiada de muros ao longo da minha rua
por onde os gatos caminham. de vez em quando
um hiato de portão. uma sebe
bem cortada espigada por flores teimosas.
um som de porta de carro
bate no silêncio e distrai-me os cotovelos
do parapeito da janela. o moderador da minha atenção
segue a fiada de muros ao longo da minha rua
e integra o hiato de um portão. um som de porta de casa
ecoa a batida anterior no silêncio e distrai-me dos cotovelos.
há uma fiada de parapeitos ao longo da minha sebe
bem cortada de gatos que caminham por flores teimosas.
a minha rua é uma janela espigada por onde
caminham os meus pensamentos porque
há um lar de vez em quando onde os gatos se detêm.

quarta-feira, maio 07, 2008

anónimo acto


finalmente
tenho por profissão descrever
nada de importante. a vida suave e redonda
que nada altera e ninguém que agite
a quietude das horas certas.

a importância é morosa de artifícios árduos
sempre exigente por provas expiradas. compleição enxuta que
rescende a colónias como se por deuses
o labor sudasse. não. desta vez
há homens dentro desta história.

homens pequeninos da estatura de homens. de estrutura
mansa sem longas palavras. pensares em forma de
bifes no prato e prantos bravios com lágrimas e socos.
a mole anónima presta-se a enlaces
pois simples, folclóricos, do real fadado, têm
complexos minúsculos com anexos ralos.
nos sonhos pululam crianças que berram
brigas com fadigas de pais separados. esp’rança em medalhinha
em fio fino dourado faz pendant com as pérolas
no anel de noivado. o dia é uma rota ainda que enfadonho
e o clima suporta queixa e desconsolo.

não. nesta história houve homens de perfil bem sério. mais alma que corpo
que o coração é que manda. sabe-se lá se choram
sabe-se lá porque amam. quem faz perguntas
vive pouco o plano e se se explica há por certo engano.

finalmente
integram o que é importante. transpiram
subúrbio. obedecem a um amo.

terça-feira, maio 06, 2008

inumano


a atenção
para a frente se redige - o pescoço hirto -

nenhum fascínio
a redirige. a lua - um disco plano - imóvel
poalha de poemas - sobra

        há uma hérnia nos dedos
        há uma catarata na íris
        há um homem a mais - que soçobra -


e um prisma invertido
divertido com antigos medos

segunda-feira, maio 05, 2008

papel memória


não sei porque não se escreve a luz
que cada um emana

se cada indelével
raio
única assinatura
traz nos caracteres inscrita
a criatura

(porque se impressiona
no papel memória
o panning da amargura?)

domingo, maio 04, 2008

Tu és o outro


Tu és o outro
-- que outros outros despedaço --
Em ti não quero fímbria de remorso!

Regaço aberto
-- que outro novo abraço --
Em mim só fogo bravo e sempre moço!

Enquanto assim escorrer de mim
o tempo—lasso o laço—
Solto o brado e lanço o braço!



Nenhum recado o amante eleva
além do muito querer—depois não querer—
Perde o outro em si se a si se nega!

sexta-feira, maio 02, 2008

in.satisfação


| desafio duas impossibilidades:
despertar a tua fantasia ou adormecer a minha
| mjm


como se todas as cordas vibrassem
em uníssono
o mesmo silêncio. esgaça-se a mão
que o tange.
         a tua boca
a tua boca
timbra o som de todas as linguagens
que de longe te trouxe. são as mesmas
que nunca conheceste. o indivisível
plural.
             | as primeiras
de entre as mesmas. se repetidas são
inaudíveis reverberam. |
     evoca nome nenhum. nenhum nome toca
a emoção denunciada.
inominável segue.
             | o silêncio é o encontro de quem se acha. |
pingam palavras, da tua boca
     da tua boca
         o suco inevitável. ainda assim
nenhuma sede significando sede
será saciada.
             | sobre essa boca. esta outra
boca há-de ecoar numa linguagem
inusitada. |


quinta-feira, maio 01, 2008

fantasia


é intrigante
a fantasia.
achar o motivo
para entender
parece ser o nosso ofício.
mas é mania

[
corre o vento.
quando ele não corre
acaso dizemos
: pára o vento
?
]

deve ser mania
imaginar o vento
em eterna correria

quarta-feira, abril 30, 2008

O segredo dos dias


No redemoinho da roda
dos dias. Sem o teu olhar
definharia. Por isso me dependuro dos segredos
que tecemos. A cada dia.
Se as almas se desmanchassem
- diz-me tu – em que taças as recolheríamos?
Nas dos olhos com que vemos
por dentro
os dias que fantasiamos – dirias -. A taça
cheia. De nós connosco dentro. Dos olhos.
Com que nos vemos
a inventar dias felizes.
No redemoinho dos olhos. A cada dia.
Tecemos almas
dependuradas nos segredos
dos dias. Felizes.

segunda-feira, abril 28, 2008

mediação


se me desse para escrever seria contra
a ausência. ocupar algum do espaço onde
caberiam mãos com gestos soltos cabelos livres
passeando pelo espaço onde as palavras
pronunciadas devagar
a serem ditas
ocupariam. se me desse para escrever
seria contra o vazio. redecorar o branco com
um novo branco
poderia. mudar-lhe o lugar
devagar
recolocá-lo no tecto que protege as paredes
e murá-las
de palavras como gestos de mãos em cabelos
soltos ou como espaços sem paredes
pronunciáveis
a serem ditas. se me desse para escrever seria
contra a palavra. contra a palavra dita. porque
a cada hora em que me sobram ausência vazio branco
o lento branco do redito
é a palavra que me medita.

terça-feira, abril 22, 2008

o lado visível


há sempre uma opacidade
num corpo. um lado visível. contra o qual resvalam lânguidas
as palavras.
expressões. paredes porosas. camas
de bolor. onde se expande. se entranha. ou perspira
a inanição.

de encontro à transparência.
as palavras.
móveis. mudas de espanto obedecem. formam
corpo. encorpam expressão. bolor ou condensação
lâminas.

rombas. rasgam invisíveis
conversas. de silêncio.

há sempre uma palavra em silêncio
no corpo da palavra. inanimada. perspira
a entranha muda. ou lânguida. ou
embolorada voz.

sexta-feira, abril 18, 2008

Faz hoje. Com certeza.


Faz hoje
não sei quanto tempo que
alguma coisa aconteceu
para lembrar. Com certeza. Alguma coisa que
devia estar a comemorar.
Não me lembro.

Dei comigo a medir
quanto disto de
me comemorar. E não me lembro.
Mas sei que faz hoje
não sei quanto tempo.

Com certeza. De alguma coisa
disto. De qualquer coisa que
me mede no tempo.
Quanto mais me aproximo
insisto. Não me lembro. Roubo tempo
ao tempo e persisto. Tem que haver
algo a comemorar!

Rememoro o tempo
onde existo. Não me lembro. Um momento. Perdi
a marca ao lugar.
Com certeza. De mim há tempo
com tempo por vir. Devagar.

De muito de mim
hoje disto. E não me lembro. Redemoro
no tempo
a passar. Com certeza. Faz hoje
não sei quanto tempo que
o tempo era tempo a marcar.

sexta-feira, abril 11, 2008

Falar sentidos


Pensei ter-te já dito o que sabia
Terei tão-só sentido; dito o refrão
Pois se o amor se sente – então, fervia!
Dizê-lo não sabe, nunca, o coração

Se já dizê-lo sabe é porque algures
História se tornou e a mente o conta
Se língua houvesse nele – bem que a procures!
Lográ-lo-ia assim de ponta a ponta

Ter siso era nem se questionar
Sentir; não sentir – apenas ser-se
Porém, não pára a mente de girar
“Como seria?”; “Será isto pertencer-se?”

Se hoje aqui retorno na eterna dúvida
Se falar sabe, se mente ainda com a mente
O amor perdi e a história me esconjura
A falar de memória – pois já não sente…

***

Irónico é o ponto em que a verdade
Tenta encontrar na vida e na saudade
Resposta que equilibre o desatino

Quando se é jovem, tem-se sempre pressa
Quando se é velho, nada disso interessa
- Cativos a intentar contra o destino!

segunda-feira, abril 07, 2008

Imagino almofadas


E eu, que tanto falo,
quando te falo acabo por te dizer tão pouco!...
Sempre uma prestação em atraso,
entrecalada, entrecortada, entretelada a prumo naquilo que uma-rapariga-tem-que-ser…
             Não sejas assim, rapariga! Uma menina há-de um dia ser senhora, e uma senhora há-de ser feminina!
                        Há-de ser feminina. Há-de ser feminina.
     Se tivesse acatado o ensinamento só bordava agora raminhos miosótis em tons pastel no teu lençol de sonho. Não saberias nadinha das minhas pernas entrelaçadas no monograma da almofada; só o que uma-rapariga-tem-que-ser a estragar-te a imaginação.

Visto-me em alma e ninguém me reconhece.

Falo pelo peito,
falo, falo, mas quando é a ti que falo acabo por te dizer tão pouco!...
     Deve ser deste meu corpo enroscado nas palavras, miosótis, ponto pé de flor de amor, nada que uma-rapariga-tem-que-ser possa na outra entender.
                         Há-de ser feminina. Há-de ser feminina.
Trago doridas, pesadas, as pernas de tão enroscadas.
     Imagino almofadas.      Imagino almofadas.

o querer


no inverso
meço o meu verso
e impeço
nexo
sexo
; o amplexo
; o excesso
de amar

no complexo e sinuoso
processo
reescrevo

ouso
ou esqueço
o medo de me entregar

terça-feira, abril 01, 2008

caligrafia


| Sonho contigo porque a noite é uma lente que magnifica as emoções.
Mas então, porque persiste este sabor a ti,
se acordei há tanto tempo?
| mjm



só o desejo
aperfeiçoa
a caligrafia do beijo
e o meu corpo boca
anseia escrever
pela tua boca corpo
até corpo boca
não serem palavras escritas
até meu teu
se tornarem ilegíveis