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segunda-feira, abril 28, 2008

mediação


se me desse para escrever seria contra
a ausência. ocupar algum do espaço onde
caberiam mãos com gestos soltos cabelos livres
passeando pelo espaço onde as palavras
pronunciadas devagar
a serem ditas
ocupariam. se me desse para escrever
seria contra o vazio. redecorar o branco com
um novo branco
poderia. mudar-lhe o lugar
devagar
recolocá-lo no tecto que protege as paredes
e murá-las
de palavras como gestos de mãos em cabelos
soltos ou como espaços sem paredes
pronunciáveis
a serem ditas. se me desse para escrever seria
contra a palavra. contra a palavra dita. porque
a cada hora em que me sobram ausência vazio branco
o lento branco do redito
é a palavra que me medita.

terça-feira, abril 22, 2008

o lado visível


há sempre uma opacidade
num corpo. um lado visível. contra o qual resvalam lânguidas
as palavras.
expressões. paredes porosas. camas
de bolor. onde se expande. se entranha. ou perspira
a inanição.

de encontro à transparência.
as palavras.
móveis. mudas de espanto obedecem. formam
corpo. encorpam expressão. bolor ou condensação
lâminas.

rombas. rasgam invisíveis
conversas. de silêncio.

há sempre uma palavra em silêncio
no corpo da palavra. inanimada. perspira
a entranha muda. ou lânguida. ou
embolorada voz.

sexta-feira, abril 18, 2008

Faz hoje. Com certeza.


Faz hoje
não sei quanto tempo que
alguma coisa aconteceu
para lembrar. Com certeza. Alguma coisa que
devia estar a comemorar.
Não me lembro.

Dei comigo a medir
quanto disto de
me comemorar. E não me lembro.
Mas sei que faz hoje
não sei quanto tempo.

Com certeza. De alguma coisa
disto. De qualquer coisa que
me mede no tempo.
Quanto mais me aproximo
insisto. Não me lembro. Roubo tempo
ao tempo e persisto. Tem que haver
algo a comemorar!

Rememoro o tempo
onde existo. Não me lembro. Um momento. Perdi
a marca ao lugar.
Com certeza. De mim há tempo
com tempo por vir. Devagar.

De muito de mim
hoje disto. E não me lembro. Redemoro
no tempo
a passar. Com certeza. Faz hoje
não sei quanto tempo que
o tempo era tempo a marcar.

sexta-feira, abril 11, 2008

Falar sentidos


Pensei ter-te já dito o que sabia
Terei tão-só sentido; dito o refrão
Pois se o amor se sente – então, fervia!
Dizê-lo não sabe, nunca, o coração

Se já dizê-lo sabe é porque algures
História se tornou e a mente o conta
Se língua houvesse nele – bem que a procures!
Lográ-lo-ia assim de ponta a ponta

Ter siso era nem se questionar
Sentir; não sentir – apenas ser-se
Porém, não pára a mente de girar
“Como seria?”; “Será isto pertencer-se?”

Se hoje aqui retorno na eterna dúvida
Se falar sabe, se mente ainda com a mente
O amor perdi e a história me esconjura
A falar de memória – pois já não sente…

***

Irónico é o ponto em que a verdade
Tenta encontrar na vida e na saudade
Resposta que equilibre o desatino

Quando se é jovem, tem-se sempre pressa
Quando se é velho, nada disso interessa
- Cativos a intentar contra o destino!

segunda-feira, abril 07, 2008

Imagino almofadas


E eu, que tanto falo,
quando te falo acabo por te dizer tão pouco!...
Sempre uma prestação em atraso,
entrecalada, entrecortada, entretelada a prumo naquilo que uma-rapariga-tem-que-ser…
             Não sejas assim, rapariga! Uma menina há-de um dia ser senhora, e uma senhora há-de ser feminina!
                        Há-de ser feminina. Há-de ser feminina.
     Se tivesse acatado o ensinamento só bordava agora raminhos miosótis em tons pastel no teu lençol de sonho. Não saberias nadinha das minhas pernas entrelaçadas no monograma da almofada; só o que uma-rapariga-tem-que-ser a estragar-te a imaginação.

Visto-me em alma e ninguém me reconhece.

Falo pelo peito,
falo, falo, mas quando é a ti que falo acabo por te dizer tão pouco!...
     Deve ser deste meu corpo enroscado nas palavras, miosótis, ponto pé de flor de amor, nada que uma-rapariga-tem-que-ser possa na outra entender.
                         Há-de ser feminina. Há-de ser feminina.
Trago doridas, pesadas, as pernas de tão enroscadas.
     Imagino almofadas.      Imagino almofadas.

o querer


no inverso
meço o meu verso
e impeço
nexo
sexo
; o amplexo
; o excesso
de amar

no complexo e sinuoso
processo
reescrevo

ouso
ou esqueço
o medo de me entregar

terça-feira, abril 01, 2008

caligrafia


| Sonho contigo porque a noite é uma lente que magnifica as emoções.
Mas então, porque persiste este sabor a ti,
se acordei há tanto tempo?
| mjm



só o desejo
aperfeiçoa
a caligrafia do beijo
e o meu corpo boca
anseia escrever
pela tua boca corpo
até corpo boca
não serem palavras escritas
até meu teu
se tornarem ilegíveis

sábado, janeiro 20, 2007

Identidade

| a humanidade espelha transversalmente o que a une, pela semelhança. porém, só se valida se acentuar a diferença. | mjm


Ser-se a antítese de si mesmo
Negando ao outro a redenção
Pelo reconhecimento
Retira a confiança do crente -
A paz em que espelha cansados os olhos
No espelho dos meus, reciclados escolhos -
Logra tranquilizar-se por se ter achado
Refractado em partículas que lesto absorve;
Mas já nada devolve
O que faz ser-se humano

[
Se quem me precisa é um outro sujeito
E se em tese de outro outro num outro preciso
Precisa serei por esse outro pelo engano
Que em mim acha o que de mim precisa
Sem em mim reparar que por síntese ou encanto
Preciso é precisar o que é desumano
]

Passo a água na cara
A água no corpo; a água no leito
Limpo da vida resquícios de mágoa
Trajectos que a alma errou desajeito
Sagaz embacio reflexos que espelhem
Este loudaçal que se espalha pelo peito
Sem haver outro jeito; sem ver outro jeito
Sem jeito de um dia conseguir esconder
O que degenera num crime perfeito

quarta-feira, novembro 22, 2006

de fora pra dentro


| Espalmo o pensamento contra a vidraça
Uma estrela faria toda a diferença |


estar por dentro e olhar pra fora;
olhar o dentro no de fora;
como se o dentro do de fora
fora por fora o que falta dentro;
esperar por dentro que o de fora
venha pra dentro - nem que fora
só por um laivo de momento.


_________
(inspirado por este poema da Márcia Maia)

terça-feira, novembro 21, 2006

destempo


vale-me nesta hora
ponderar sobre o que quis
: nascer sem nada
: percorrer os trilhos da alvorada
e muitas mais viagens que ainda não fiz
vale-me agora
repensar o que desfiz
: a trama de uma incógnita
: a apropriação do que era nómada
no tempo se perde o tempo da raíz
reponderando a história
vou escrevendo de memória
devolvo o tempo morto
: liberto-o do meu jugo
: imaginando o tal final feliz

à solta na palavra
vivo descrita numa escrita que não fiz
por isso o que descrevo
vale o que vale; diz o que diz
o certo é querer não crer no que já quis

terça-feira, novembro 14, 2006

no limite


baixou uma luz ténue
na rua. na rua larga sem limites de passeio.
um modo estranho de percorrer o mesmo sítio
sem saber se fui. se estou.
sequer se existo. sei que é rua
pois diviso algumas casas. gente
que divaga. como eu. anda sem jeito.
perde-se a luz na rua. na rua larga sem limites
como os meus passos. no limite
do meu peito.

quinta-feira, novembro 02, 2006

a partir chegaste


a partir chegaste .
perdurando . lento . lento .
algo assim .
fiquei nesse momento . que durou .
dura . ficou pra mim .
partir . não é tormento .
chegar . sem ficar . no fundo
nem é partir .
entendo-o . esse momento .
foi chegar . mas pelo fim .

sexta-feira, outubro 20, 2006


deixar que a cabeça penda sobre o papel
que suspire embacie as letras
esborrate as linhas do mote
como o suor que inunda a pele

deixar que penda o verso sobre a cabeça
e consagre o momento
agarre o poeta
que investe entristece
que divaga se projecta
e se propaga
entre a mente e o papel

no turbilhão da escrita
evade-se e amplifica-se o tropel

aquilo que sempre fica
não contém senão pegada
da dor, do amor (são história desmaida)
só viva e funda a espada
marca d'água consignada sob a pele

sábado, outubro 07, 2006

mas eu não sei


Às vezes dizem-me caminhos apontando para roteiros
que eu olho sem ver rodeios e digo sei

mas não sei

Que meneie cem vezes a cabeça em sins acólitos
escondendo em sorrisos os meus vómitos
Que não vos dê a minha dor por ver a vossa e a troque
gentilmente; seja quem mente

mas não sei

Não sei se deva ser generosa
afinal
se toda a verdade é desdenhosa
e a minha pode colidir com a vossa
minta quem possa

mas eu não sei

terça-feira, outubro 03, 2006

não há regresso


já não caminho para o regresso
de onde venho. não há traçados que se projectem
para nenhum lugar marcado - nem chão nem tecto -
o meu passado ficou imerso
por onde andei. deixei bocados - quem sabe infectem -
dispersando ecos de mim por todo o lado - meu o afecto -
neste presente onde me penso
não há regresso. nem recomeço