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terça-feira, abril 01, 2008

caligrafia


| Sonho contigo porque a noite é uma lente que magnifica as emoções.
Mas então, porque persiste este sabor a ti,
se acordei há tanto tempo?
| mjm



só o desejo
aperfeiçoa
a caligrafia do beijo
e o meu corpo boca
anseia escrever
pela tua boca corpo
até corpo boca
não serem palavras escritas
até meu teu
se tornarem ilegíveis

sábado, janeiro 20, 2007

Identidade

| a humanidade espelha transversalmente o que a une, pela semelhança. porém, só se valida se acentuar a diferença. | mjm


Ser-se a antítese de si mesmo
Negando ao outro a redenção
Pelo reconhecimento
Retira a confiança do crente -
A paz em que espelha cansados os olhos
No espelho dos meus, reciclados escolhos -
Logra tranquilizar-se por se ter achado
Refractado em partículas que lesto absorve;
Mas já nada devolve
O que faz ser-se humano

[
Se quem me precisa é um outro sujeito
E se em tese de outro outro num outro preciso
Precisa serei por esse outro pelo engano
Que em mim acha o que de mim precisa
Sem em mim reparar que por síntese ou encanto
Preciso é precisar o que é desumano
]

Passo a água na cara
A água no corpo; a água no leito
Limpo da vida resquícios de mágoa
Trajectos que a alma errou desajeito
Sagaz embacio reflexos que espelhem
Este loudaçal que se espalha pelo peito
Sem haver outro jeito; sem ver outro jeito
Sem jeito de um dia conseguir esconder
O que degenera num crime perfeito

quarta-feira, novembro 22, 2006

de fora pra dentro


| Espalmo o pensamento contra a vidraça
Uma estrela faria toda a diferença |


estar por dentro e olhar pra fora;
olhar o dentro no de fora;
como se o dentro do de fora
fora por fora o que falta dentro;
esperar por dentro que o de fora
venha pra dentro - nem que fora
só por um laivo de momento.


_________
(inspirado por este poema da Márcia Maia)

terça-feira, novembro 21, 2006

destempo


vale-me nesta hora
ponderar sobre o que quis
: nascer sem nada
: percorrer os trilhos da alvorada
e muitas mais viagens que ainda não fiz
vale-me agora
repensar o que desfiz
: a trama de uma incógnita
: a apropriação do que era nómada
no tempo se perde o tempo da raíz
reponderando a história
vou escrevendo de memória
devolvo o tempo morto
: liberto-o do meu jugo
: imaginando o tal final feliz

à solta na palavra
vivo descrita numa escrita que não fiz
por isso o que descrevo
vale o que vale; diz o que diz
o certo é querer não crer no que já quis

terça-feira, novembro 14, 2006

no limite


baixou uma luz ténue
na rua. na rua larga sem limites de passeio.
um modo estranho de percorrer o mesmo sítio
sem saber se fui. se estou.
sequer se existo. sei que é rua
pois diviso algumas casas. gente
que divaga. como eu. anda sem jeito.
perde-se a luz na rua. na rua larga sem limites
como os meus passos. no limite
do meu peito.

quinta-feira, novembro 02, 2006

a partir chegaste


a partir chegaste .
perdurando . lento . lento .
algo assim .
fiquei nesse momento . que durou .
dura . ficou pra mim .
partir . não é tormento .
chegar . sem ficar . no fundo
nem é partir .
entendo-o . esse momento .
foi chegar . mas pelo fim .

sexta-feira, outubro 20, 2006


deixar que a cabeça penda sobre o papel
que suspire embacie as letras
esborrate as linhas do mote
como o suor que inunda a pele

deixar que penda o verso sobre a cabeça
e consagre o momento
agarre o poeta
que investe entristece
que divaga se projecta
e se propaga
entre a mente e o papel

no turbilhão da escrita
evade-se e amplifica-se o tropel

aquilo que sempre fica
não contém senão pegada
da dor, do amor (são história desmaida)
só viva e funda a espada
marca d'água consignada sob a pele

sábado, outubro 07, 2006

mas eu não sei


Às vezes dizem-me caminhos apontando para roteiros
que eu olho sem ver rodeios e digo sei

mas não sei

Que meneie cem vezes a cabeça em sins acólitos
escondendo em sorrisos os meus vómitos
Que não vos dê a minha dor por ver a vossa e a troque
gentilmente; seja quem mente

mas não sei

Não sei se deva ser generosa
afinal
se toda a verdade é desdenhosa
e a minha pode colidir com a vossa
minta quem possa

mas eu não sei

terça-feira, outubro 03, 2006

não há regresso


já não caminho para o regresso
de onde venho. não há traçados que se projectem
para nenhum lugar marcado - nem chão nem tecto -
o meu passado ficou imerso
por onde andei. deixei bocados - quem sabe infectem -
dispersando ecos de mim por todo o lado - meu o afecto -
neste presente onde me penso
não há regresso. nem recomeço

quarta-feira, setembro 27, 2006

A tua ausência


A tua ausência
não me cabe num poema
Dizer-ta aqui sem pele onde a escrever
era amar-te inteiro como inteiro existes adverso
ao verso do existir por dentro apenas
Não sei de presença
que mais me doa que calar o que em mim fala
pelas entranhas onde circulas adverso
Inverso a tudo a que do amor entendas

domingo, setembro 17, 2006

atrito



a interna circulação
arrisca um texto
rodam paráfrases
do mesmo silêncio
.
atrito insuportável

sexta-feira, setembro 15, 2006

E se não mais fizer


[ ... ]

E se não mais fizer
Que útil seja
Que venha cada dia
Cereja a cereja

[ sob a árvore a vida corre ]
[ por sobre dorme ]

Sou quem sobeja

terça-feira, setembro 12, 2006

Sem pelo dizer passar


Nada mais direi
Que não tenha já dito
; que não tenha sido dito.
Nada que do dizer podia
Encontra rima em metáforas
; equilibradas.
Se os meus silêncios
São aqui já nadas
Antes fossem aquele tudo
; que me soubesse sem pelo dizer passar.
Só passos firmes galgando velhos limites
Passar-me para o outro lado
; sem pensar cuidado
E deixar-me amar.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Suspensão


exalar significados
pelos olhos
tê-los fechados
sucedendo-se as paisagens
só rente aos lábios
intocar-lhes
os âmagos dilatados
suspender os sentidos
retardá-los

sábado, agosto 26, 2006

Construções


Começou pelo fim feito deserto máximo
Fechou-se no seu quarto feito eremita rústico
E a cada dedilhada na guitarra acústica
O som embrionário se escondia opiácio
Vibrando entre dedos de ossos vetustos
Como se a eternidade fosse feita de plástico
E o seu desejo vário variasse em mono
Cercou-se de instrumentos de derrame inválido
Sorrisos comprimidos em dádivas últimas
Como se o seu destino fosse ser seu hóspede
Nasceu de mil bocados em alicerces torpes
A voz bem recolhida em colcheias de barro
Na música aflorando pedaços de escrita
A pele a vibrar sons sem nexo de consolo
Retornando ao embrião que gera sonhos cálidos
Caíu na encruzilhada dos desejos bárbaros
O amor era o corsário desses desejos vários

Começou pelo fim feito derrame inválido
Fechou-se no seu quarto feito um opiácio
E a cada dedilhada na guitarra de barro
O som embrionário se escondia cálido
Vibrando entre dedos de ossos acústicos
Como se a eternidade fosse feita de dádivas
E o seu desejo vário variasse em sonhos
Cercou-se de instrumentos eremitas rústicos
Sorrisos comprimidos em dádivas torpes
Como se o embrião gerasse sonhos bárbaros
Nasceu de mil bocados em alicerces plásticos
A voz bem recolhida em desertos últimos
Na música aflorando pedaços de mono
A pele a vibrar sons sem nenhum nexo máximo
Retornando ao embrião que gera corsários
Caíu na encruzilhada dos desejos vários
O amor era uma espécie de consolo hóspede

______
(contraponto ao Construção, Chico Buarque)