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sábado, outubro 07, 2006

mas eu não sei


Às vezes dizem-me caminhos apontando para roteiros
que eu olho sem ver rodeios e digo sei

mas não sei

Que meneie cem vezes a cabeça em sins acólitos
escondendo em sorrisos os meus vómitos
Que não vos dê a minha dor por ver a vossa e a troque
gentilmente; seja quem mente

mas não sei

Não sei se deva ser generosa
afinal
se toda a verdade é desdenhosa
e a minha pode colidir com a vossa
minta quem possa

mas eu não sei

terça-feira, outubro 03, 2006

não há regresso


já não caminho para o regresso
de onde venho. não há traçados que se projectem
para nenhum lugar marcado - nem chão nem tecto -
o meu passado ficou imerso
por onde andei. deixei bocados - quem sabe infectem -
dispersando ecos de mim por todo o lado - meu o afecto -
neste presente onde me penso
não há regresso. nem recomeço

quarta-feira, setembro 27, 2006

A tua ausência


A tua ausência
não me cabe num poema
Dizer-ta aqui sem pele onde a escrever
era amar-te inteiro como inteiro existes adverso
ao verso do existir por dentro apenas
Não sei de presença
que mais me doa que calar o que em mim fala
pelas entranhas onde circulas adverso
Inverso a tudo a que do amor entendas

domingo, setembro 17, 2006

atrito



a interna circulação
arrisca um texto
rodam paráfrases
do mesmo silêncio
.
atrito insuportável

sexta-feira, setembro 15, 2006

E se não mais fizer


[ ... ]

E se não mais fizer
Que útil seja
Que venha cada dia
Cereja a cereja

[ sob a árvore a vida corre ]
[ por sobre dorme ]

Sou quem sobeja

terça-feira, setembro 12, 2006

Sem pelo dizer passar


Nada mais direi
Que não tenha já dito
; que não tenha sido dito.
Nada que do dizer podia
Encontra rima em metáforas
; equilibradas.
Se os meus silêncios
São aqui já nadas
Antes fossem aquele tudo
; que me soubesse sem pelo dizer passar.
Só passos firmes galgando velhos limites
Passar-me para o outro lado
; sem pensar cuidado
E deixar-me amar.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Suspensão


exalar significados
pelos olhos
tê-los fechados
sucedendo-se as paisagens
só rente aos lábios
intocar-lhes
os âmagos dilatados
suspender os sentidos
retardá-los

sábado, agosto 26, 2006

Construções


Começou pelo fim feito deserto máximo
Fechou-se no seu quarto feito eremita rústico
E a cada dedilhada na guitarra acústica
O som embrionário se escondia opiácio
Vibrando entre dedos de ossos vetustos
Como se a eternidade fosse feita de plástico
E o seu desejo vário variasse em mono
Cercou-se de instrumentos de derrame inválido
Sorrisos comprimidos em dádivas últimas
Como se o seu destino fosse ser seu hóspede
Nasceu de mil bocados em alicerces torpes
A voz bem recolhida em colcheias de barro
Na música aflorando pedaços de escrita
A pele a vibrar sons sem nexo de consolo
Retornando ao embrião que gera sonhos cálidos
Caíu na encruzilhada dos desejos bárbaros
O amor era o corsário desses desejos vários

Começou pelo fim feito derrame inválido
Fechou-se no seu quarto feito um opiácio
E a cada dedilhada na guitarra de barro
O som embrionário se escondia cálido
Vibrando entre dedos de ossos acústicos
Como se a eternidade fosse feita de dádivas
E o seu desejo vário variasse em sonhos
Cercou-se de instrumentos eremitas rústicos
Sorrisos comprimidos em dádivas torpes
Como se o embrião gerasse sonhos bárbaros
Nasceu de mil bocados em alicerces plásticos
A voz bem recolhida em desertos últimos
Na música aflorando pedaços de mono
A pele a vibrar sons sem nenhum nexo máximo
Retornando ao embrião que gera corsários
Caíu na encruzilhada dos desejos vários
O amor era uma espécie de consolo hóspede

______
(contraponto ao Construção, Chico Buarque)

domingo, agosto 20, 2006

eu faço o ninho


quando as palavras têm o peso de um passarinho
eu faço o ninho
num canto do teu sorriso
alongo o olhar pelos pêlos dos teus braços
que são só braços
a luzirem ao luar
deixo-me entreter devagar
na paródia de uma história
num desfiar da memória

é leve e brilha a pupila
cintila levita sem ciso que me prenda
é só renda a rendilhar
brincamos no faz de conta
tu és quem conta eu sou a tonta
até o dia clarear

depois
jogamos palavras com emoção mais pesadas
espreitando nelas as margens do voo a saber voar

assim vamos
construindo coisas simples sem destino
imos novos novos rimos
sabemos nada assim vimos
sozinhos somos num par

quinta-feira, agosto 17, 2006

Epitáfio


De toda a coragem
A que lhe sobrara
Era a de dormir sem sonhos
Pois de sonhar cansara.
A noite de tão longa,
De tão negra e avara,
Tremendo o deixara.
Que o sono ora lhe forre
As penas da almofada.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Se quisesse enlouquecer, podia (*)


Mudos
Persistem os gritos
Continuamente
Infinitos
A asfixiarem-me a pele

Se quisesse
Enlouquecer, podia
Se a aragem da fantasia
Me penetrasse
Real

_______
(*) referência a uma frase de Herberto Helder: "Se eu quisesse, enlouquecia."

quarta-feira, agosto 02, 2006

tudo por dizer


tantos se alonjam
só tu permaneces
porque me habitas
és tu, amor
serás aquele que nunca foi nem está
serás aquele das horas todas
das palavras inomináveis
entorpecidas pelo não-dizer
há um lugar tranquilo
fascinante e intransitável
onde sempre estás deitado
no meu grito a entardecer
tantos se alonjam
só tu permaneces
pois nunca foste ou vieste
e eu com tudo por dizer

sábado, julho 29, 2006

As pontes do amor


Ah!
Poder chamar-te a mim
Sem medo algum de perder-te…
Repaginava os dias
Lambendo as pontas dos dedos
Ah!
O tempo
O dos beijos suaves
Aquele em que fomos milagres
Susteve-nos a meio da ponte

(...)

Soubeste que a tinham alargado?
Sim! Ruíu-lhe uma trave de lado
Chamaram peritos, houve inquérito a aflitos
O tal do processo foi analisado
Nas pontes, parar, avaria os sensores!
Imagina: engenheiros, técnicos; todos dotores
Não consideraram que houvesse amores
Nas pontes, sem fim destinado…

(...)

Se há pontes, amor, transitemos
Parados no amor viajemos
A ponte do amor é maior
Se no sonho do amor, meu amor,
Não tivermos parado

segunda-feira, julho 24, 2006

De que é feita a madrugada?


De que é feita a madrugada?
De alvorada, se a acendem astros
Sem mais nada
Se o sono a esconde apsisionada
Naquela morte descansada
Envolta em luas adormecidas.
Porém se os olhos
Se abrem em feridas
Colando os dias a tantas noites sucessivas…
Crivá-la ousasse; corrigi-la pudesse
Má e drogada - assim seria -
Decepava-a pela palavra!
Assim o cepo se transformasse
Em testemunha ensanguentada
Clamando a justiça que não nasce
Nessa morte executada ao irromper do dia.

quinta-feira, julho 20, 2006

A ecoar na garganta da arriba


Que importa o cais
        - se tu não vens -
Se os barcos
        - que me navega? -
São papéis . O sal dos dias
Espera o sol que o seque
        - eu espero a brisa quente que me derrete -
        - a pele na pele do tempo -
Ser apenas líquido elemento
Uma onda, um bicho
        - um nome ao vento -
Sovada maresia num tropel
        - ser nada de importante -
        - nenhum instante -
E toda a eternidade condensada
        - aquele grão de areia -
        - o quase nada que erode lentamente -
Na decisão eternamente adiada
Soltar a jangada? Prender o batel?

Na clareira
        - o pó da estrada -
Acende o céu uma lua apagada
Crepúsculo que medeia dois limites de tempo
        - resíduo de firmamento -
Mescla imperceptivelmente
O rastro de um momento
        - um fio interligando a dimensão errada -
        - a ténue intercepção de terra e nada -