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quinta-feira, junho 23, 2005

eternidade

eternidade
dura
o
instante
em que
te abraço
assim
distante

ilusório
contorno
do espaço

não há
tempo

cansaço

quinta-feira, junho 16, 2005

A flor

Pontilha-se o olhar de constelações
que não desaparecem com o bater das pálpebras.
Experimentei a álgebra, a sintaxe,
o sossego das casas.
As borboletas a esvoaçar contra as paredes
do estômago.
Não há sabedoria bastante.
Pontualmente, os dias sucedem-se e isso vê-se nas flores.
E eu, constato que respirar é involuntário,
como despropositado o teu corpo
deitado no meu sonho.
Há uma permanência que asfixia.
Só queria uma ilha a sul onde acolher os pássaros.
Por isso, recolho a flor atrás da nuca
e sustenho a cor com as mãos em concha.
Os sons voltaram para cima dos ombros
mas cantam baixo
para que não os ouça.
Enquanto tudo permanecer inalterável
a minha vontade é um supérfluo logro.
Inventa-se a azáfama na paisagem do louco.
Não há sabedoria bastante.
É um instante longo e doloroso
que antecede a inércia da abastança.
Sobra tudo quando falta
na bravata do futuro
a flor da esperança.

quarta-feira, junho 15, 2005

adjectivado

amplo e inútil
feroz e táctil
desproporcionado
enredo de pele e medo
; volátil
frágeis constantes

perverso
o amor
sem amantes

segunda-feira, junho 06, 2005

Dos poemas vegetais

podemos açoitar o ar
lamentar
as horas onde crescem
vegetais
que o poema dá-se
noutro lugar
de nada serve a poesia
que cresce nas hortas das horas

o lugar da poesia
não está nas horas vazias
cresce nos dias
sobretudo naqueles onde não crescem vegetais

de nada serve a poesia
se não cresce nas hortas das horas
irreais

sexta-feira, junho 03, 2005

Está combinado.

Está combinado.
Mato-te a ti. Hoje.
Amanhã. Trocamos.
Vamos sentir. O alívio.
Permutado.
É mesmo assim. O amor.
Concordo. Subvertamos.
Matas-me a mim. Hoje.
Amanhã. Trocamos.
Vamos cumprir. O amor.
Está combinado.

quinta-feira, junho 02, 2005

Insecto


na indigência de afecto se oferece o sexo no extremo do corpO
zune o insecto no amplo espaço vagO
que historia o amoR
que há entre ti e o diabO

quarta-feira, junho 01, 2005

Sorvo breve

Não é nossa
a casa.
Nem dos corpos
somos donos.
Não há, por isso, nem
posse, nem abandono.
O que nos capta
é memória
Pela passagem, o
tempo empregue
E quem se
usa, acrescenta
Não abusa, reduz ou
tira para além do
Sorvo breve.

terça-feira, maio 31, 2005

Amputações latentes

Descrês dos teus próprios
pensamentos e o clamor
não pára de vociferar por dentro.
Crê-los dissonantes
das verdades corrigidas
que circulam em panfletos,
a negarem a luz dos fósforos que riscas
no breu do silêncio. Não confiras
inventários! Mede a capacidade
incomensurável, mas não te percas
a validá-la pelos que chegaram antes e viram
o depois, antes de ter sido tempo.
A circunstância mede a pegada
não a distância.
Entre os teus passos
e os meus,
ninguém reclama o firmamento.
Se fremem gritos são do futuro
no esconjuro do seu próprio chamamento.

Glasses

O meu coração é isto
Passa por mim e sem me ver
Desfaz muralhas só por querer
E ao longe, mas mesmo ao longe
Confunde amor
Com paraíso

quinta-feira, maio 26, 2005

Entorna-se o medo

Entorna-se o medo
Como
Maçãs de ouro
A amanhecer por dentro
A correr

Entorna-se o medo
E há gazelas
A correr
Nas telas
Nos olhos
Os olhos
A escorrer
Avessos

Entorna-se
O medo
E há medo
Do medo
A correr

sábado, maio 21, 2005

Adlábios

os meus lábios
            Advérbios
            Adlábios
os teus verbos
[Nenhuma gramática funciona]

quarta-feira, maio 18, 2005

Dual

A tempo | o tempo urge
Não passa | tinge e devassa
Aqui, vazio | ali surge
Decerto simples | complexo
Do mais ao menos | excesso
Se vem, se fica | que passa
Não saber | saber, sabia
Teimosa idiossincrasia
Redução | assim extravasa

quinta-feira, maio 12, 2005

TRIBILOGIA

traço uma recta
entre o espaço que vai de mim a ti
e a superfície que se formou plana
entortou-se e fechou-se em círculo
levei tempo para reconhecer
o voo de um pássaro
na forma de
uma
estrela
quando o objecto se fez conceito
varri do espaço cerebral
as nuvens quadrangulares
tropeço agora em
triângulos
perfeitos
linhas certas
três vértices
polos constantes
na vida em diagonal
que me atravessa
na recta inicial
abriram-se espaços
projecto hexágonos


(1984)

quarta-feira, maio 11, 2005

Nem rio

Não sei de margens que me estreitem
Senão teus braços
Nem de bocas que me expliquem
Senão teus lábios
Mas sequei tanto
Que de mim não tens o rio
Só fráguas da memória empobrecida

Aqui donde me vês não há guarida
Nem cais nem arrais nem mesmo cio
Não permaneço e o leito meço
Sinto ser pântano e apodreço
Corais não há peixes não tem
Não há ninguém
Nem mesmo o rio

terça-feira, maio 03, 2005

Se eu disser pássaro

Se eu disser pássaro
Cortem-me as veias!
Pássaro é símbolo de tudo
O que não roço
Se eu disser pássaro
Cortem-me ao meio!
Nessa palavra me iludo
Posso tudo o que não posso.