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quarta-feira, março 01, 2006

Orbital


Não há descanso
Dentro da poesia.
Se palavras emprestadas
Usadas em desalinho
Desajustam as mensagens
No dizer não há conforto.
Nem ideias em confronto.
Fica a ânsia de as dizer
O poema por fazer.
Adiada fico apenas
Na órbita desses poemas.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Por sorte - Por certo


Por sorte sobram
Os registos das palavras.
Não foram elas
- por certo inexistiria -.
Por sorte sobram
Nelas certas coisas várias
Dizê-las sorte surte séria bizarria.
Várias por certo sobram soltas
Das imagens
Que alicerçam outras palavras
- assim seria -.
Por certo erram - erro nelas -
Sortes várias
Imagens certas que por certo
Inventaria.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

sonetando ursos-panda fodendo

poeta era mais que urso - só podia!

poeta era mais que urso - só podia!
ousar plasmar assim na queca desses pandas
rima tosca, fraco verso - as pernas bambas -
pra no fim chamar a isso de poesia!

alheio a tudo, iam e vinham os peluches
que anual era o sacramento desse líbido
urso não era - antes asno, e distraído!
presenciar aquela foda entre estrebuches

a natureza ali provava novamente
o despudor e o desmontar de certos mitos
que o frenesi quando se apossa é sem corrente

e nem poeta, virgem concreta ou séria gente
consegue assim alardear do amor os gritos
nem que em poesia a foda seja a mais decente!


(integrado numa rapsódia de sonetos)

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

imas de esforço


desguardei le-
tras iniciais
de iniciáticos ver-
sos depois de as baralhar em jogos
de acaso
destras se agruparam no la-
do esquerdo
da sorte
tribais se ali-
nham justa-
mente ao mesmo ritmo
canhoto
com que tentam acer-
tar no lado cer-
to do ver-
so min-
úsculas máx-
imas de esforço

sábado, fevereiro 11, 2006

como linhas

um fio contínuo
inesperado e fino
oscila ou parte
não fora a arte
a defini-lo
]
pressenti-lo
já é sabê-lo
[
entranço-o
solto
no meu cabelo

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Dialéctica

Passa a mão
solta e espalha
o verso sobre a pele
Sob a pele do verso
passa o resto que o espalha e
solta a mão

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Nesta tela

Nesta tela,
aproximo e afasto os ritmos
no meu tempo
organizo as coordenadas
do espanto
iludo-me e enfrento-me
sem ninguém me ver
corar
Nesta tela,
eu sou tu
ou eu sou ela
- toda uma outra esfera
onde há vida a circular

terça-feira, janeiro 31, 2006

eu quero mais

desimpeçam o caminho
das vossas flores envasadas
guardem-nas nas vossas casas
enfeitadas de pássaros exóticos em gaiolas raras
que à janela de sol em doses
invejam as outras aves elevadas de asas
.
eu, eu quero percorrer trilhos sem homens de plástico
sem os seus cânones elásticos
de prenúncios de vendavais
- do que dão eu quero mais

domingo, janeiro 29, 2006

repontuando dúvidas

cansados de subir montanhas
recostámo-nos no espaldar dos discursos vagos
e esperamos as manhãs com que sonhámos
. ah. invencidos. também. cansados
repontuamos as mesmas dúvidas reacesas por todos os lados
. as manhãs. essas. sucedem-se em espaldares diurnos
. manias apensas aos rituais lá delas
as nossas não vêm. se vieram enquanto dormíamos. não eram as sonhadas
. e a nossa luz. frágil luz. raios difusos
harmonizando filosofias refraseadas
. montanhas. também. de deformada cera pelo queimar de velas
. as perguntas amontoando-se e nós cansados. recostados nelas

segunda-feira, janeiro 23, 2006

sem motivos

só quero a vida sem motivos
deixá-la por aí à solta. esquecida de mim
se com motivos me motiva a vivê-la
deixa-me
no sulco da ruga
o motivo para não querê-la
.
ah. conselhos sobram. enfastiam e tempo roubam
esquecer não sei. esperar não quero
escorra a vida para longe e seu mistério

domingo, janeiro 22, 2006

homens-língua

anda cá
vamos dar nomes às coisas
brincar de homens-língua sob os dentes
rente ao horizonte
há uma ponte
daqui vimos nascente
de lá será poente
a nós parecer-nos-ão sempre diferentes
e os nomes caem errando a fonte
sob a língua sobre a língua
sem margem zenital
saliva urgente

sábado, janeiro 21, 2006

pensámos nada

pensámos nada
. dilataram-se os dias e nós com eles
. cresceu um sol nas nossas noites e não nas dos outros
- culpam-nos por isso -
e pelas alvoradas que vivem penduradas no nosso telheiro
. sei que a pele se estica sempre que nos rimos e somos gentios de fés que prendem seios
. pensámos nada
. quando nos deitamos exalamos cio de virgem madrugada
. crescem flores nos lábios e maçãs cintilam na terra endiabrada
. lentas terra e água

quinta-feira, janeiro 19, 2006

caminhemos

caminhemos lentamente em passos leves.
estaremos já indo. essa a viagem. o que nos espera
não nos conhece.
crescem-nos braços enquanto caminhamos. estaremos nós ali. não vês?
o que pode o destino contra nós?
tranquiliza-te. nada receies. quem nos espera somos nós.
ainda que outros.
nós, os dos braços longos. sem pressa, sem medo.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

acontece-nos

acontece-nos um barco. nos olhos
sem cais
e flui pelo líquido desejo de amar
(todas as algas dentro dos peixes
sob o silêncio da água)
. acontece-nos amar
como os bichos
marinhos.

longínqua
a azáfama de pescadores na memória
acontece-nos. a cada maré

terça-feira, janeiro 17, 2006

na linha d'água

manter na linha d’água
o sal
o som
sibilidado da palavra
submergir esporo
emergir poro
e só ser alga